
03/11/2020
Sob o sol matogrossense, um grupo de queixadas agoniza nas imediações de um lamaçal, um dos poucos refúgios para o calor escaldante que emana de uma terra arrasada por numerosos e devastadores incêndios.
Ali, entre animais mortos e feridos, muitos dos quais apresentando queimaduras pelo fogo e ossos expostos, está uma filhote desse porco selvagem. Ela tem apenas alguns meses de vida e permanece ao lado de sua mãe, à beira da grande poça, observando outros membros do bando definhar na lama.
É como se estivessem aguardando pela própria morte. Uma morte lenta, pois não há água nem comida. O tempo está seco. Não há nenhum sinal de chuvas. E é difícil respirar: o cheiro de carne podre se mistura com a fuligem da vegetação queimada. Pode-se ouvir o barulho das moscas que se alimentam dos cadáveres dos animais.
A floresta desapareceu. Só restam cinzas.
A cena acima foi observada por ambientalistas que estiveram no Pantanal no início de outubro e descrita à BBC News Brasil em conversa por telefone, antes da chegada das chuvas que deram trégua parcial à maior tragédia experimentada por esse bioma em sua história.
Mais de 25% da maior planície alagável do mundo já foram consumidos pelo fogo, segundo mostram imagens de satélite, uma área um pouco menor que a do Estado do Rio de Janeiro.
Os incêndios, de acordo com especialistas, são resultado da pior seca a atingir a região e da ação do homem com queimadas ilegais.
"Ela (filhote de queixada) estava ao lado da mãe, já sem os cascos (cobertura que protege os dedos). Os queixadas são animais sociais, por isso, não abandonam os outros membros do grupo, mesmo que mortos. Ficam, assim, expostos ali, sem água e comida, definhando", diz Roched Seba, diretor do Instituto Vida Livre, ONG sediada no Rio de Janeiro que trabalha na reabilitação e soltura de animais em situação de risco.
Seba fez parte de um mutirão de veterinários e voluntários que viajou ao Pantanal para salvar animais do fogo a partir da campanha "Pantanal em chamas", lançada pela ONG Ampara Animal e a Ampara Silvestre.
"Provavelmente, no afã de fugir do fogo e tentar se refrescar, esses animais entraram no lamaçal durante à noite e não conseguiram sair dali porque não tinham mais forças. Pela manhã, a lama seca, vira um caldeirão e eles ficam presos. Como muitos estão cansados e mutilados pelo fogo, com feridas infeccionadas e ossos expostos, acabam morrendo", acrescenta ele, ressalvando que faz parte do comportamento dessa espécie entrar na lama.
"Numa situação normal, além de amenizar o calor, isso garante um repelente natural contra insetos, por exemplo".
Seba conta que, quando viu a filhote de queixada, percebeu que ela talvez teria maior chance de sobrevivência em meio ao grupo.
"Ela estava com a mãe na beira do lamaçal e tentou correr da gente. A mãe não conseguiu correr. Joguei uma rede em cima dela (filhote) e a segurei em meus braços, pois ela, por ser filhote, não podia ser anestesiada. Também resgatamos outros cinco animais, que acabaram não resistindo", conta.
Quando, duas horas depois, o grupo voltou para salvar a mãe, ela já estava morta.
"Foi um momento horrível, pois não tínhamos braços para levar a mãe".
Se quiser saber como é o tratamento, termine de ler esta matéria no G1
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