
03/11/2020
Os incêndios que deixaram um rastro de destruição com mais de 4 milhões de hectares do Pantanal em cinzas podem interferir na quantidade de peixes e também afetar a qualidade das águas dos rios que cortam o bioma. O alerta é do especialista em ictiologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Fernando Carvalho.
Conforme o pesquisador, é muito provável que as queimadas provoquem uma redução significativa no número de indivíduos dos cardumes nos rios do Pantanal no próximo ano.
Ele explica que isso pode ocorrer porque a dinâmica de reprodução dos peixes da planície pantaneira está intimamente relacionada com as áreas alagáveis. Essas áreas foram muito atingidas pelos incêndios. Os dados mais recentes apontam que o Pantanal possui em torno de 300 espécies de peixes.
Além disso, Carvalho explica que a qualidade da água depois das queimadas também muda, para pior. A principal alteração é a diminuição drástica do oxigênio dissolvido (OD). Organismos mais sensíveis podem sofrer com hipóxia - falta de OD ou anóxia - ausência de OD, e não resistir.
Diversos processos biológicos são alterados, com influência direta na estruturação e composição das comunidades aquáticas, a partir da presença de cinzas no ambiente aquático, explica o especialista.
Carvalho ainda reforça que o Pantanal possui uma diversidade considerável de animais, incluindo peixes: "O que é mais marcante no bioma não é a diversidade, mas sim a abundância de cada espécie, de maneira geral populações grandes, com grande número de indivíduos", e ainda acrescenta:
"Muitas áreas que são inundadas na cheia, secam completamente no período da seca e este ano pegaram fogo. As cinzas dessa combustão estão agora no solo. Quando a água voltar a estas áreas, encontrará um solo com cinzas e outras matérias orgânicas depositadas. Isto aumentará a turbidez da água e reduzirá drasticamente a porcentagem de oxigênio dissolvido no rio, essencial aos organismos aquáticos, incluindo os peixes", explicou ao G1.
Quanto as queimadas prejudicarem a quantidade da população dos peixes, o especialista conta que muitas espécies da região são migratórias, ou seja, sobem os rios para se reproduzirem (piracema).
Entre elas estão o pintado, o pacu, o jaú e o dourado, entre outros. Essas espécies sobem os rios para desovar nas cabeceiras e as larvas/jovens ficam a deriva no canal do rio, mas precisam entrar em uma área alegável, protegida, para crescimento.
Carvalho explica que como a maior parte das áreas alagáveis foi queimada, o ambiente não estará favorável ao crescimento das larvas e dos peixes jovens. Isto resultará na diminuição da quantidade de peixes formadores dos grandes cardumes para o próximo ciclo.
Segundo o pesquisador, o Pantanal não tem nenhuma espécie ameaçada de extinção, mas três delas estão no grupo de risco: o pacu, o jaú e o pintado. Essas espécies também são muito procuradas para o pesque-solte e a pesca profissional.
Conforme ele, essas são também espécies migradoras que dependem das áreas de inundações para crescimento das larvas:
"Estas espécies poderão ter uma redução significativa na abundância, mas ainda não correm o risco de extinção, pelo menos com este evento de queimadas, mas terão suas abundâncias diminuídas. O risco maior de extinção de uma espécie é maior naquelas com distribuição restrita, com poucos indivíduos formando a população e com história de vida específica para um determinado ambiente", reforça.
Saiba mais no G1
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