
03/12/2020
Em setembro deste ano, biólogos e conservacionistas tiveram um fio de esperança ao se depararem com nove ovos de uma espécie de ave raríssima e que há anos luta para não ser extinta da natureza, o pato-mergulhão.
A descoberta ocorreu na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, por membros do Plano Nacional de Ação para a Conservação do Pato-Mergulhão (PAN Pato-Mergulhão), projeto que reúne pesquisadores, órgãos ambientais e entidades não-governamentais em busca de uma salvação para a espécie.
Originalmente, o pato-mergulhão ocupava margens de rios brasileiros, como o São Francisco. Mas também era encontrado no Centro-Oeste e em algumas áreas do Sudeste e do Sul. Também havia populações na Argentina e no Paraguai, mas hoje é considerado extinto nesses dois países.
Estima-se que, atualmente, existam apenas 250 indivíduos adultos no mundo — todos no Brasil. "Hoje, há informações de populações apenas na Chapada do Veadeiros, no Jalapão e Serra da Canastra", explica o biólogo Paulo Antas, membro da Fundação Pró-Natureza (Funatura) e integrante do PAN Pato-Mergulhão.
O biólogo faz parte da equipe que encontrou os ovos na Chapada dos Veadeiros, em setembro. "Cada filhote e cada ninho ativo que encontramos são um fio de esperança para salvar a espécie", diz.
Segundo o ICMBio, o pato-mergulhão encontra-se na categoria "criticamente ameaçada", e é uma das aves aquáticas mais raras do mundo.
Para sobreviver e se reproduzir, o animal, que se alimenta de peixes de até 12 centímetros, necessita de águas limpas e transparentes, principalmente dos rios e córregos cercados por matas ciliares, com cachoeiras e piscinas de diferentes tamanhos e profundidades. Mas esses locais estão cada vez mais escassos.
"Qualquer alteração na qualidade da água, tanto poluição como o fluxo dos rios, afeta a vida do pato-mergulhão de forma significativa. Ele só é capaz de sobreviver quando a água está clara e limpa, sem alterações", explica Paulo Antas.
É por isso que o pato é considerado um "bioindicador" ambiental: o bem-estar e a reprodução da espécie significam que o habitat e a qualidade água estão em equilíbrio. Quando o ambiente está poluído ou degradado, o pato-mergulhão desaparece. Essa condição de reflexo das condições ambientais deu a ele o apelido de "embaixador das águas brasileiras".
O declínio da espécie começou em meados dos anos 1970, principalmente por causa da poluição dos rios e bacias hidrográficas, mas também por conta da construção de hidroelétricas.
"A questão energética é muito importante para a conservação de espécies, pois ela tem impactos ambientais relevantes. Pequenas centrais elétricas, que abastecem núcleos urbanos e que represam rios importantes, mudam dinâmicas da água e afetam espécies importantes", diz Robson Capretz, coordenador de ciência e conservação da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, entidade que apoia ações de conservação do pato-mergulhão.
Os pesquisadores costumam citar o rio Palmeiras, no Tocantins, como um exemplo do impacto das hidrelétricas para a ave. Décadas atrás havia populações saudáveis do animal nas margens do rio, mas elas desapareceram depois da instalação de 11 pequenas centrais elétricas por ali.
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