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2 anos após tragédia da Vale, quatro cidades do entorno de Brumadinho ainda sofrem com impactos

26/01/2021

Há dois anos, Selma Barbosa vendia hortaliças para a Central de Abastecimento de Minas Gerais (Ceasa). A horta era irrigada com a água do Paraopeba, que passava perto da casa dela. Mas às 12h28 do dia 25 de janeiro de 2019, um “mar de rejeitos” vindo da barragem de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, contaminou o rio.
“O rio era tão limpinho tão maravilhoso. Eu plantava milho, alface, couve, cebola, pimentão, tomate, quiabo, banana. Eram a minha renda. Eu perdi tudo. Agora só Deus para ter misericórdia da gente”, disse a produtora rural que precisou vender as criações de gado e de porcos para poder sobreviver.
Selma está entre as 3.066 pessoas que sofrem as consequências da contaminação do Rio Paraopeba em São Joaquim de Bicas – cidade em que mora –, Betim, Mário Campos e Juatuba.
Em Brumadinho, os problemas se repetem e a população ainda vive o luto pelas 270 vidas perdidas no dia 25 de janeiro de 2019. As buscas do Corpo de Bombeiros pelas 11 vítimas que seguem desaparecidas continuam no entorno da barragem. Ao longo de 2 anos, foram mais de 6 mil horas de trabalho, com quase 4 mil militares.
Os moradores de Brumadinho ainda tentam se reerguer. No Córrego do Feijão, comunidade que dá nome à mina da Vale onde ocorreu o rompimento, quem quer continuar no local diz que tem medo do vazio do distrito. Segundo os moradores, está acontecendo uma expulsão indireta. A Vale compra imóvel das pessoas e não faz nada com as casas, que ficam abandonadas. Eles temem que a memória do lugar fique encoberta por mato.
De acordo com um relatório feito pela Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (Aedas), contratada como assessoria técnica independente, por determinação da Justiça, 62,51% dos atingidos não exercem nenhum tipo de atividade remunerada em Betim, Juatuba, Mário Campos e São Joaquim de Bicas. Selma, por exemplo, vive hoje do bolsa-família.
“A gente vive aqui sem renda nenhuma. Às vezes eu escovo o cabelo de alguém. A gente vive assim hoje. Era tanta fartura, acabou tudo”, contou ela.
Segundo o relatório, 67% dos atingidos de São Joaquim de Bicas tiveram diminuição de renda após o rompimento da barragem da Vale. Em Mário Campos, este índice chegou a 66%. Em Juatuba, o número foi 64% e 63% em Betim.
"Os moradores atingidos pelo rompimento tiveram renda muito prejudicada. A questão da contaminação da água, morte de rebanhos e animais, contaminação de hortas, por exemplo, vem acarretando progressivamente danos à saúde das pessoas e ao desenvolvimento econômico local. Os danos são constatados desde a perda dos espaços e formas de produção até o aumento do custo de vida no território", disse o coordenador institucional da Aedas, Luiz Ribas.
Ainda segundo o relatório, menos de 40% das famílias atingidas têm regularidade no abastecimento de água. Desde a suspensão do uso da água do Paraopeba, os moradores relatam problemas no abastecimento.
O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) constatou que o Rio Paraopeba, no trecho entre Brumadinho e Pompéu, está impróprio para consumo e agricultura. Desde então, o abastecimento e a distribuição de água potável têm sido responsabilidade da Vale, de acordo com determinação da Justiça.
Porém, de acordo com relatório da Aedas, 12% dos atingidos de São Joaquim de Bicas, 11% dos de Betim, 7% dos de Mário Campos e 6% dos de Juatuba disseram que não têm água para beber.
"Até setembro de 2020, cerca de 1.165 famílias entraram em contato com as assessorias técnicas, principalmente apontando problemas na distribuição de água feita pela Vale", disse Luiz Ribas.
Várias comunidades se tornaram dependentes dos caminhões-pipa disponibilizados pela Vale, na tentativa de minimizar o problema de abastecimento. Segundo a mineradora, 55 veículos percorrem, juntos, 11 mil quilômetros por dia, em média, levando água para moradores ribeirinhos manterem as criações e hortas. Fardos de água mineral para uso doméstico também são distribuídos, segundo a Vale.

Para saber mais acesse o G1

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