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Comunidade na Amazônia é atacada enquanto líder participa da COP26

11/11/2021

Barracos, móveis e pertences de moradores foram incendiados no acampamento São Vinícius, no município de Nova Ipixuna, no sudeste do Pará, no dia 3 de outubro. O local, com cerca de 80 famílias, é alvo de disputa agrária há dez anos.
Moradores relatam que 11 deles, sendo três idosos, foram agredidos e amarrados por duas horas pelos criminosos. O caso será investigado pela Delegacia de Conflitos Agrários, da Polícia Civil.
O episódio foi denunciado pela ativista Claudelice Santos, moradora de Nova Ipixuna, durante a COP26, conferência da ONU sobre mudanças climáticas que ocorre em Glasgow (Escócia). Ela, que participa de evento no Reino Unido, relatou o episódio nas redes sociais.
"É importante que tenha uma investigação minuciosa sobre quem atuou na articulação, financiamento e ação no ataque. Não podemos admitir que a agromilícia tenha liberdade de matar, torturar e expulsar pessoas que apenas reivindicam direitos constitucionalmente garantidos", escreveu no Instagram.
Claudelice é líder do Instituto Zé Cláudio e Maria, entidade que leva esse nome em homenagem a um casal de ativistas da reforma agrária que foi assassinado na região em 2011. Eles eram irmão e cunhada dela.
Segundo relatos dos moradores, por volta das 16 horas, os agressores chegaram em 14 caminhonetes e em um caminhão, já atirando contra os membros do acampamento.
Boa parte dos homens estava encapuzada. A maioria dos moradores conseguiu escapar em direção à mata, mas 11 deles foram capturados, incluindo duas mulheres e três idosos.
Os que não escaparam, ainda segundo o relato do grupo, ficaram rendidos ao longo de duas horas de bruços no chão. Eles receberam coronhadas, chutes e socos. Ninguém morreu na ação, mas os agredidos precisaram ir a um hospital da região para tratar os ferimentos.
O grupo de homens armados queimou barracas, móveis, utensílios, seis motocicletas e documentos das famílias do acampamento.
"Os fazendeiros chegaram atacando o acampamento, sem dar chance de defesa. Foi muito rápido, muito violento. Um terror. Peguei pancada, perdi alimentos, utensílios de cozinha. Deixou o povo sem nada. Eu fui tentar conversar com alguns para pedir para parar, mas me jogaram no chão e me chutaram com a arma apontada na cara", disse Josias Teixeira, lavrador de 53 anos.
Ele conta ter sofrido uma série de agressões físicas e verbais e que, depois disso, foi colocado em uma caminhonete e largado em um ponto desconhecido no meio da mata.
Segundo o MPF (Ministério Público Federal), a fazenda Tinelli, onde o acampamento fica, está sobreposta a um imóvel matriculado em nome da União. Em 2002, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) publicou portaria de criação de assentamento na área.
De acordo com a CPT (Comissão Pastoral da Terra), o processo de criação do assentamento foi iniciado porque o fazendeiro ocupante da área não tinha direito de regularizar o imóvel, por já ter recebido título de outro imóvel da União e por ter utilizado a terra pública para especulação.
Os proprietários da fazenda Tinelli, na época, também foram acusados de vender 810 hectares da área ilegalmente.
Para a advogada da CPT (Comissão Pastoral da Terra), Larissa Tavares, há inércia do Incra, porque, em outubro, o MPF recomendou ao instituto que concedesse a área para a reforma agrária.
A comissão calcula que entre 1996 e 2019, 320 trabalhadores e lideranças foram assassinados no Pará e outros 1.213 foram ameaçados de morte por conta de conflitos de terra.
Em 2014 as famílias sem terra acamparam no local pedindo que o pedido para criação do assentamento saísse do papel, mas a família Tinelli conseguiu na Justiça Estadual do Pará uma liminar favorável ao despejo imediato do grupo.

Saiba mais na Folha de S. Paulo

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