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Amazônia não está sendo gerida, está sendo destruída, diz eurodeputada

23/11/2021

O acordo comercial entre União Europeia e Mercosul é fundamental e deve ser um dos objetivos de curto prazo do bloco europeu, afirma a eurodeputada portuguesa Lídia Pereira, que integrou a comitiva do Parlamento Europeu na COP26, em Glasgow.
Membro do Partido do Povo Europeu, grupo político conservador que é o mais numeroso no Parlamento Europeu, ela foi uma das participantes de uma reunião no evento com o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, e se declarou otimista em entrevista à Folha após o encontro, em Glasgow.
Apesar de "falhas de parte a parte" nas relações recentes entre os dois blocos, Lídia Pereira disse esperar que a mudança de atitude apregoada na COP pelo governo Bolsonaro pudesse "abrir portas a uma maior cooperação" e levar a assinatura do acordo comercial "a um bom porto".
Mas os dados oficiais divulgados na quinta-feira (18), apontando alta de 22% na destruição da floresta no último ano, deixaram-na decepcionada e "revoltada".
"O discurso do ministro foi muito focado no futuro. Mas o futuro não pode ser o caixote do lixo do presente, o sítio para onde atiramos o que não queremos fazer hoje. A mancha verde da Amazônia não está a ser gerida, está a ser destruída", disse Lídia Pereira em complemento da entrevista em Bruxelas, na sexta (19).
Economista, ela havia avaliado como positivo o plano apresentado por Joaquim Leite na COP, de criar formas de remuneração por serviços de conservação florestal, mas já ressalvava que era necessário entender se o atual discurso do governo Bolsonaro "é de fato credível".

Os dados sobre o salto no desmatamento contradizem de alguma forma as informações fornecidas pelo governo brasileiro na reunião com a delegação do Parlamento Europeu na COP? Parece-me claro que o governo brasileiro não tem total consciência do valor patrimonial ambiental, social e de biodiversidade que tem a responsabilidade de gerir. A Amazônia é um local único e incomparável, e seu desmatamento só pode ser visto como um crime contra a história, a cultura e fundamentalmente contra as próximas gerações.
O discurso do ministro foi muito focado no futuro. Mas o futuro não pode ser o caixote do lixo do presente, o sítio para onde atiramos o que não queremos fazer hoje. A mancha verde da Amazônia não está a ser gerida, está a ser destruída. O Brasil está a queimar e a desmatar o seu maior patrimônio, pelo que só posso apelar a toda a sociedade brasileira para fazer também na Amazônia uma transição de modelo econômico.

Que vocação econômica vê na floresta amazônica? Ela tem um grande potencial turístico, se devidamente e corretamente aproveitado, que pode e deve servir para compensar eventual perda de rendimento pelo fim urgente do desmatamento.

De acordo com o Inpe, os números estavam disponíveis desde o final de outubro. O ministro Joaquim Leite disse que apenas quinta-feira, quando foram divulgados, teve conhecimento. Preocupa-a que o responsável pelo Meio Ambiente no Brasil leve três semanas para se informar sobre a principal estatística de desmatamento do país? Não tenho dados concretos que me permitam avaliar se houve ou não intenção deliberada de ocultar esses dados. Mas, mais preocupante que o momento da divulgação, acho que temos de nos preocupar com o que os próprios dados demonstram. O ritmo avassalador do desmatamento e a inação política perante a destruição da Amazônia.

A sra. diz que o ministro falou em futuro. Dado esse resultado do último ano, considera que as políticas do governo Bolsonaro serão capazes de conter o desmatamento na Amazônia? Parece-me claro que não está a ser feito o suficiente e as palavras do ministro na COP não batem certo com sua ação. Na política já há algum tempo que percebi que devemos observar mais o que se faz do que o que se diz que se faz. O governo brasileiro proclama a direção correta, mas os resultados são terríveis.

Respeitando a legitimidade do governo do Brasil, não posso senão manifestar discordância, desilusão e até revolta com a destruição de um patrimônio que é da humanidade. A nós, cabe-nos tomar conta da Amazônia para as próximas gerações, e temos falhado redondamente nesse objetivo.

Para terminar de ler esta reportagem acesse a Folha de S. Paulo

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