
30/11/2021
Um dos peixes mais consumidos no país, o cação é, na verdade, o nome comercial de um conjunto de cortes de animais que inclui diversas espécies de tubarões e até raias. É o que dizem especialistas no estudo dos elasmobrânquios (grupo dos tubarões e das raias).
Para divulgar o tema, a ONG Sea Shepherd Brasil criou recentemente a campanha Cação É Tubarão.
O consumo de cação traz problemas ambientais sérios, dizem os ativistas, uma vez que esses animais estão gravemente ameaçados em todo o mundo. As populações estão em declínio desde a década de 1990, e cerca de 40% das espécies conhecidas hoje sofrem risco de extinção.
De acordo com dados levantados pela Sbeel (Sociedade Brasileira para o Estudo de Elasmobrânquios), o Brasil é o principal consumidor e importador de carne de cação no mundo.
"Nós temos uma produção de 20 mil toneladas por ano de carne de tubarão e raia e, desde 2012, também importamos a mesma quantidade, então a gente dobrou nossa demanda", afirma Rodrigo Barreto, pesquisador do Cepsul/ICMBio e secretário-executivo da Sbeel.
Apesar do alto consumo, cerca de 7 em cada 10 brasileiros não sabem que cação é carne de tubarão ou raia, indica uma pesquisa com mais de 5.000 pessoas feita pela entidade em agosto deste ano.
"Sob o guarda-chuva de ‘cação’ temos espécies que não são consumidas em nenhum outro lugar do mundo, só em países como México, Brasil e outros em que há ausência de informação, tornando esses locais centros para o depósito da carne desses animais", afirma Barreto.
Recentemente a proposta de compra da carne de cação para abastecer a merenda escolar na rede municipal de educação de São Paulo foi alvo de críticas da Sea Shepherd. Em reação, a ONG fez uma petição online para derrubar o edital. Até o dia 10 de novembro, quando foi adiado pela primeira vez o pregão, o texto tinha reunido mais de 1.300 assinaturas.
Em nota enviada na noite da última terça-feira (23), a prefeitura de SP, por meio da Secretaria Municipal de Educação, informou que a licitação em questão foi revogada, e a decisão, publicada no Diário Oficial do dia seguinte (24). A gestão não comentou os motivos da desistência.
Desde 2009 o Brasil, assim como outros países fizeram depois, adotou leis para proibir a prática conhecida como finning, nome dado para a retirada das barbatanas dos tubarões para venda em mercados especializados, enquanto o restante do corpo do animal —o "charuto"— é jogado no mar.
Só que, com a proibição, países que consumiam a carne passaram a receber nos seus portos os animais inteiros, não mais as carcaças. As barbatanas costumam ser então cortadas e vendidas, principalmente para o mercado chinês, onde chegam a custar até US$ 5 mil (cerca de R$ 28 mil), e a carne é aproveitada para consumo.
"A proibição do finning não inibiu a pesca desses animais, ao contrário, gerou uma mudança logística das empresas pesqueiras, que agora precisam fazer mais viagens até a costa de países que têm interesse na carne do tubarão. E o custo é baixo porque eles lucram em cima das barbatanas", afirma Nathalie Gil, diretora executiva da Sea Shepherd Brasil.
Como os peixes chegam ao consumidor final já limpos e no formato de postas, é mais difícil diferenciar uma espécie da outra. "E em muitos casos os vendedores cortam os animais em formatos diferentes para mascarar sua aparência que permite a identificação", diz Gil.
É o que acontece, por exemplo, com o tubarão-martelo, espécie incluída na lista do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) como criticamente em perigo. É comum ver o animal em peixarias com a cabeça cortada na diagonal, para disfarçá-lo.
Por não haver a distinção da espécie no produto que é popularmente chamado de cação, a fiscalização de órgãos como o Ibama ou o Ministério da Agricultura fica prejudicada. Gil explica ainda que o sucateamento das instituições e a prática de autofiscalização nas embarcações agravam a situação.
"Não há recursos financeiros suficientes dos órgãos fiscalizatórios, como Ibama, para fazer o sequenciamento genético de todas as espécies que compõem a carne de ´cação´. E nos barcos os chamados olheiros, que fiscalizam a pesca de espécies ameaçadas, são contratados pelas empresas e não denunciam", diz.
Vem entender esta história na Folha de S. Paulo
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