
30/11/2021
Uma das espécies de aves mais frequentes na América do Sul, a Pseudopipra pipra, pode ser, na verdade, um grupo formado por até 17 espécies diferentes, de acordo com um estudo internacional publicado este mês na revista científica "Molecular Phylogenetics and Evolution", que sugere existir muito mais espécies de pássaros na região do que se imagina.
Conhecida popularmente como Manakin-de-coroa-branca, a Pseudopipra pipra provavelmente surgiu nas florestas altas dos Andes, no norte do Peru, mas, ao longo de séculos, migrou para outras regiões do continente, descreve o artigo.
"Atualmente, essa ave também é encontrada em toda a Bacia Amazônica, em demais florestas do Brasil [Mata Atlântica], no Peru e em muitos outros países, incluindo partes da América Central", explica o autor principal do estudo, Jacob Berv, pesquisador da Universidade de Michigan.
Considerando que a América do Sul e Central abriga diversos biomas com paisagens diferentes, os pesquisadores sugerem que algumas das populações ancestrais de Pseudopipra pipra que migraram dos Andes ficaram isoladas em outras regiões por barreiras físicas - como montanhas, clima, rios e cânions.
Com o passar dos séculos, essas populações evoluíram independentemente e se tornaram diferentes umas das outras, de modo que devem agora ser reconhecidas como espécies separadas.
Assim, o que hoje é chamado de maneira generalizada de Pseudopipra pipra é, na realidade, "um complexo de espécies composto de pelo menos 8, e talvez até 17 espécies distintas que surgiram nos últimos 2,5 mil anos", diz trecho do estudo.
No início da pesquisa, há quase dez anos, o americano Berv quis compreender como as populações de Pseudopipra pipra variavam ao longo de sua distribuição, em especial na Amazônia - uma vasta região que abriga mais da metade da área de todas as florestas tropicais remanescentes do planeta, mas que é considerada um único bioma.
Para isso, Berv pediu ajuda ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Outros pesquisadores que participaram do estudo foram os da Cornell University, da Universidade da Cidade de Nova York, de Yale e do Inpa descreveram e compararam as variações genéticas e físicas do Manakin-de-coroa-branca ao longo da América do Sul.
Os pesquisadores do Inpa analisaram variações de plumagem e de canto da espécie em diferentes regiões da Amazônia. Para isso, eles gravaram o som de 200 Manakin-de-coroa-branca. Para a sua surpresa, eles identificaram 14 tipos diferentes de cantos apenas dentro do bioma.
"O canto é algo muito importante para as aves se encontrarem e se reconhecerem dentro de um bosque. Um pássaro não costuma acasalar com outro que não tenha o mesmo canto que o seu", explica a coordenadora de Biodiversidade do Inpa, Camila Ribas, única brasileira que assina o artigo.
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