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Por que África tem enviado toneladas de celulares quebrados para Europa

14/12/2021

Eric Arthur não tem muito tempo livre. Ele passa a maior parte dos fins de semana dirigindo pelas ruas e avenidas de Cape Coast, em Gana, coletando telefones celulares quebrados.
Chega a se deslocar mais de 160 km peregrinando entre lojas de consertos e reparos e depósitos de lixo - qualquer lugar que tenha um estoque razoável de aparelhos sem uso.
Em um bom fim de semana, ele coleta cerca de 400. Outras seis pessoas fazem a mesma coisa em outras partes do país. Cada aparelho sai por algo entre 2,5 e 2,7 cedis ganeses, cerca de 44 centavos de dólar (R$ 2,5). Até o fim deste ano, o grupo espera conseguir recolher cerca de 30 mil celulares.
O serviço é pago por uma empresa social holandesa chamada Closing the Loop ("fechando o ciclo", em tradução livre), que envia o material à Europa, onde é reciclado. Uma empresa especializada em fundição recupera cerca de 90% dos metais do telefone em um processo que incinera as peças de plástico.
Mas por que enviar telefones a milhares de quilômetros da África Ocidental?
Segundo Joost de Kluijver, cofundador da companhia, o continente africano ainda não possui usinas de fundição com a estrutura e capacidade necessárias para recuperar as pequenas quantidades de metais altamente valiosos que são usadas ​​na fabricação dos telefones celulares.
"Falta tudo o que você precisa ter para que uma unidade fabril seja financeiramente sustentável", diz ele. "Não há legislação, infraestrutura e nem consciência do consumidor. Como resultado, não há recursos para financiar coleta e reciclagem adequadas."
Enquanto isso, cerca de 230 milhões de telefones são vendidos na África todos os anos. Quando os consumidores querem se desfazer deles, alguns são recolhidos pela indústria informal de reciclagem, mas a maioria é jogada fora.
De acordo com o Global E-waste Monitor, iniciativa apoiada pelas Nações Unidas, a África gerou 2,9 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2019. O volume é muito menor do que o da Europa, por exemplo, que produziu 12 milhões de toneladas no mesmo período. A taxa de reciclagem, contudo, é bem mais tímida, de apenas 1%, ante 42,5% na Europa.
Para cobrir os custos da coleta, a Closing the Loop tem uma série de acordos com empresas que se comprometem a lhe pagar cerca de US$ 5,60 (R$ 31,5) a cada novo telefone que adquirem para suas próprias operações.
O valor cobre os custos de coleta, envio e reciclagem de um telefone do continente africano, além de uma margem de lucro para a empresa.
A lista de clientes tem crescido, e inclui desde o governo holandês até empresas de consultoria como a KPMG. Para os colaboradores, é um investimento relativamente pequeno, mas com um benefício ambiental significativo.
Também há iniciativas locais buscando fazer frente ao problema do lixo eletrônico na região.
No Quênia, por exemplo, outro país que não conta com um sistema nacional estruturado de reciclagem administrado pelo governo, a organização sem fins lucrativos Computers For Schools Kenya ("computadores para escolas no Quênia", em tradução literal) montou em 2012 o Centro de Resíduos de Equipamentos Elétricos e Eletrônicos (WEEE, na sigla em inglês).
O Computers For Schools Kenya busca suprir a falta de computadores nas escolas quenianas com produtos remanufaturados (ou "refurbished", como são mais conhecidos, no termo em inglês). Por lidar muito com eletrônicos no dia-a-dia, a ONG percebeu rapidamente o problema que os resíduos desses materiais representava, diz Simone Andersson, diretora comercial do WEEE.

Saiba mais no g1

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