
06/01/2022
Um dia depois de se mudar para sua casa em Vigário Geral, há 20 anos, o aposentado Reinaldo de Almeida, 76, viu sua porta ficar alagada com água misturada a esgoto após forte chuva na zona norte do Rio de Janeiro.
A razão era comum a muitos moradores da região metropolitana: dejetos lançados na rede pluvial, feita para coletar água de chuva, que acaba transbordando poluída em temporais.
A construção de uma rede de esgoto há nove anos em parte do bairro não resolveu o problema do aposentado. Os canos entopem com frequência, provocando transbordamentos da água poluída, que escorre pela rua até a galeria pluvial cujo destino é o rio Pavuna, afluente da baía de Guanabara.
Assim como Almeida, mais da metade dos cerca de 9 milhões de habitantes do entorno da baía não tem esgoto tratado. É um problema crônico cujas promessas de solução somam quase 40 anos.
Almeida e seus vizinhos simbolizam também a principal falha dos projetos que prometeram limpar a baía. Eles estão ao lado da ETE (estação de tratamento de esgoto) Pavuna, mas não conseguem enviar seus resíduos para lá de forma adequada.
O Programa de Despoluição da Baía de Guanabara, de 1994, construiu quatro estações de tratamento, mas não todos os canos necessários para levar os dejetos até elas. O que foi instalado sofre com falhas de manutenção. A ETE Pavuna opera com apenas 18% de sua capacidade.
O fracasso empurrou para a Olimpíada de 2016 a promessa de tratar 80% do esgoto lançado na baía. Cinco anos depois, a taxa varia de 24% a 46%, a depender da fonte de dados.
A concessão do saneamento básico no Rio, concluída em abril, renovou as promessas. A nova meta é tratar 90% até 2033, em linha com o novo marco regulatório do setor.
Um investimento emergencial de R$ 2,7 bilhões nos próximos cinco anos por parte da concessionária Águas do Rio, vencedora do leilão na região, está previsto para acelerar o fim do despejo de dejetos na baía.
Para isso, porém, foi adiada a solução definitiva para os que não contam com um sistema de esgoto em oito municípios da bacia hidrográfica (Belford Roxo, Duque de Caxias, Itaboraí, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Rio de Janeiro e São Gonçalo). Por cinco anos, o índice de atendimento nessas cidades ficará o mesmo.
A aposta nesse período é o chamado coletor de tempo seco, de implantação mais rápida. Em vez de novas tubulações ligando casas à rede exclusiva de esgoto, a poluição continua sendo escoada pela rede de drenagem de chuva e será bloqueada ou antes do deságue nos rios ou na própria calha fluvial antes de chegar à baía. Dali, será direcionada para as estações de tratamento, atualmente ociosas.
Chama-se de tempo seco porque, em caso de chuvas fortes, o sistema não dá conta da vazão e a água poluída é despejada nos rios. Assim, alagamentos e valões que contaminam ruas e vielas devem continuar, segundo especialistas.
"Tempo seco não acaba com o valão de esgoto. O objetivo é despoluir o rio a curto prazo", diz Adacto Ottoni, professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).
Para ele, o sistema se justifica como estratégia emergencial na bacia do rio Guandu, principal fonte de água da região metropolitana. A poluição no local tem gerado sucessivas crises hídricas, como a proliferação da geosmina. "Não é o caso da baía de Guanabara."
O engenheiro sanitarista Alexandre Pessoa, da Fiocruz, afirma que a concessão deveria priorizar a melhoria na saúde dos moradores. "O sistema é feito para trazer uma melhoria ambiental da baía ou para garantir que a população não entre em contato com esgoto das comunidades?", indaga.
Esta reportagem pode ser lida por completo na Folha de S. Paulo
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