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Ações voluntárias não resolverão crise climática, diz articuladora do Acordo de Paris

25/08/2022

Farhana Yamin, uma das principais articuladoras do Acordo de Paris, vê com preocupação a falta de vontade política dos países para o cumprimento dos compromissos climáticos acertados desde 2015 e as medidas voluntárias divulgadas como transformadoras pelas empresas de combustíveis fósseis.
Para a advogada e ativista britânica, esse não é o caminho para manter viva a ideia de frear o aquecimento do planeta em 1,5°C, como acertado em Paris.
"Vimos durante a crise da Covid e agora, com a guerra da Ucrânia e da Rússia, que quando há uma emergência, quando os políticos realmente sentem que há uma ameaça, eles mobilizam todos os instrumentos que os governos têm à disposição: exército, militares, profissionais de saúde, dinheiro, Tesouro. Não fizemos isso com as mudanças climáticas. É por isso que a COP26 ainda ficou aquém do esperado, assim como todas as outras COPs antes dela", critica, mencionando as conferências do clima organizadas pelas Nações Unidas. A mais recente ocorreu em novembro passado, na Escócia.
"As soluções não estão, na minha opinião, mais em medidas voluntárias, em pedidos educados."
Yamin, paquistanesa radicada na Inglaterra, acompanha as negociações climáticas há décadas, trabalhando na construção de coalizões políticas e oferecendo consultoria jurídica para diferentes países e grupos, da Comissão Europeia à Aliança dos Pequenos Estados Insulares.
Em 2018, se juntou ao grupo ativista Extinction Rebellion (XR), movimento hoje internacional criado na Inglaterra e conhecido por seus protestos performáticos. As manifestações demandam, entre outros pontos, que governos declarem emergência em relação aos problemas climáticos e que sejam criadas assembleias cidadãs para definir coletivamente ações.
Em abril de 2019, a advogada foi presa após colar as próprias mãos na calçada da sede da Shell em Londres. Esse e outros momentos da sua passagem pelo XR são revistos e detalhados no documentário "Rebellion", lançado no final de 2021 e ainda não disponível no Brasil.
Atualmente, Yamin é vice-presidente do grupo consultivo de especialistas do Climate Vulnerable Forum, bloco que reúne 55 países com alta vulnerabilidade à crise climática, como Vanuatu, Maldivas e Bangladesh. Além disso, trabalha com instituições filantrópicas para apoio ao ativismo ambiental.
Na entrevista à Folha, Yamin defende a regulação das indústrias e dos países que causaram os maiores danos climáticos. "Quem polui menos não deve pagar o maior preço. Quem deve pagar mais são os poluidores", ressalta.
A ativista também aponta para a necessidade de envolver a imprensa e a indústria criativa no combate à crise climática.
"Precisamos do poder do cinema, da mídia, em vez de apenas ouvir os cientistas relatarem que nós temos X por cento do orçamento de carbono restante", diz. "Eles [os cientistas] só falam com uma parte do nosso cérebro, o intelecto, e estamos tentando usar a razão o tempo todo. E, às vezes, a razão não é suficiente."

Leia a entrevista na Folha de S. Paulo

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