
30/08/2022
A pior seca em 500 anos na Europa e a pior onda de calor da história recente na China: o verão de 2022 no Hemisfério Norte deixa evidente no solo seco de rios e de lagos o impacto de eventos climáticos extremos. Qual o papel do La Niña, dos ventos do Saara e do aumento da temperatura nesta crise que afeta a saúde de milhões de pessoas e coloca em risco a agricultura e a economia global?
Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que, embora a seca e o calor também pudessem ter origem em ciclos naturais na Terra, esses eventos extremos não são uma surpresa diante do atual cenário e seriam muito mais raros se a humanidade não estivesse provocando o aquecimento progressivo do planeta.
Em entrevista ao g1, o cientista climático Richard Seager, do centro de pesquisa Lamont Doherty Earth Observatory da Universidade de Columbia, explica que as mudanças do clima são apenas um dos fatores em jogo nessa crise que ele descreve como severa.
Em primeiro lugar, Seager explica que temos um La Niña em curso, um fenômeno chave no sistema climático da Terra.
Durante a época do La Niña, há um resfriamento das águas do Oceano Pacífico e isso faz com que os chamados ventos alísios (ventos que sopram de leste a oeste no Equador) se intensifiquem. Com essa intensificação, uma mudança na circulação do ar atmosférico acontece e a distribuição de chuvas muda.
O especialista em secas e mudanças hidroclimáticas destaca, porém, que geralmente o La Niña resulta em zonas de alta pressão em latitudes médias, que causam menos precipitações entre junho e agosto principalmente em uma grande área ao sul do Pacífico. Mas às vezes - e este é o caso deste ano - essas zonas circulam pelo globo.
"Isso vem acontecendo durante todo o ano de 2022 e essas zonas de alta pressão de latitude média desviam os fluxos de jatos e as trilhas de tempestade em direção aos polos da Terra e trazem condições secas para, por exemplo, a América do Norte, Europa, o Mediterrâneo e o Oriente Médio", detalha.
Em julho, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirmou que a seca em curso no Chifre da África, como é conhecido o nordeste africano, carregou neste ano justamente as influências desse atual La Niña.
"Os La Niña dos últimos invernos provavelmente tiverem o maior efeito sobre a atual seca no sudoeste dos Estados Unidos", diz ao g1 o climatologista americano Benjamin Cook.
Ela conta que as tempestades de inverno que trazem grande parte da umidade para esta região são deslocadas para o norte por causa do fenômeno e, por isso, a região enfrenta secas.
Agravando esse cenário, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos prevê que esse atual La Niña persistirá durante o outono e o início do inverno no Hemisfério Norte.
Se isso acontecer de fato, esse seria o terceiro La Niña consecutivo que se tem registro - um fenômeno raro visto apenas duas vezes no século passado e que pode agravar episódios climáticos extremos.
A reportagem completa pode ser lida no g1
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