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Desmatamento pode transformar Amazônia em berço de novas doenças

01/11/2022

Atividades humanas como desmatamento, uso da terra para mineração ou construção de rodovias e hidrelétricas, caça ilegal e criação de gado transformam a Amazônia em possível matriz de doenças zoonóticas emergentes. A destruição do habitat pela fragmentação da floresta e a redução da biodiversidade são distúrbios ecológicos que aumentam o risco de surgimento de novas doenças infecciosas e até mesmo pandemias.
Tais observações estão em artigo publicado na revista “Anais da Academia Brasileira de Ciências”, em setembro deste ano, por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e colaboradores de outras instituições nacionais e internacionais.
Baseados em resultados de estudos da área ambiental, os autores realizaram uma síntese das principais associações observadas entre impactos ecológicos causados por atividades humanas e o aumento do risco de eventos de spillover, ou salto entre hospedeiros. O termo é utilizado para nomear o processo de introdução de um patógeno de uma espécie em uma nova, sendo geralmente de não-humano para humano.
Segundo o artigo, mapear e descrever os eventos que levam ao surgimento de novos patógenos humanos é essencial para atuar na prevenção de surtos, epidemias e pandemias.
Fluxos migratórios, caça e comercialização de carne de animais selvagens, desmatamento e plantação de monoculturas são algumas das ações humanas que podem atuar simultaneamente, promovendo impactos ambientais que implicam no surgimento e propagação de doenças causadas por uma ampla gama de patógenos, como vírus, bactérias e protozoários.
O artigo mostra que a biodiversidade é um fator crucial para o controle de patógenos relevantes na natureza. Mesmo que por uma perspectiva ela represente abundância de agentes infecciosos ou de vetores, a biodiversidade, por si só, não é a causa do surgimento de novas doenças.
Para explicar essa questão, os autores apresentam o conceito do “efeito diluição”, onde ecossistemas com alta biodiversidade diluem a densidade de hospedeiros e vetores competentes e capazes de transmitir doenças, o que minimiza o contato entre eles, além de aumentar a diversidade de predadores e competidores. Isso reduz o risco de manifestação de novas zoonoses e gera um escudo para a saúde pública.
A Amazônia ganha posição de destaque no debate por ser um local que retém alta biodiversidade e por ser alvo de intensa interferência humana. A combinação desses fatores favorece a ocorrência de eventos de salto de hospedeiro, transformando o maior bioma do país em uma potencial fonte de novas doenças zoonóticas que podem se tornar o próximo problema global de saúde pública.
“Considerando o grau alarmante com o qual o Brasil está interferindo na Amazônia, não me surpreenderia o surgimento de um novo patógeno pandêmico proveniente dessa região”, comenta Joel Ellwanger, autor principal do estudo. Considerando que o Brasil acomoda a maior parte da Floresta Amazônica em seu território, o artigo evidencia a importância da iniciativa do governo em assumir o protagonismo na criação de políticas de preservação da Amazônia.
Sabe-se que esse feito não é inédito na história do país, mas tem sido negligenciado nos últimos quatro anos, o que reflete no aumento acelerado das taxas de desmatamento. Para Ellwanger, a medida mais urgente seria reduzir essas taxas, uma forma ampla de controlar questões que arriscam a biodiversidade e a saúde da população.
“Controlar o desmatamento é imprescindível para mostrarmos para a comunidade internacional que o Brasil se importa de forma concreta com questões de interesse global e que o país está comprometido com o desenvolvimento sustentável. Sem isso, continuaremos colocando nossa biodiversidade e saúde em risco”, afirma.

Fonte: Ciclo Vivo

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