
22/11/2022
O medo de uma nova tragédia provocada por fortes chuvas ainda deixa os moradores de Jardim Monte Verde aflitos. Quase seis meses depois, a comunidade localizada entre o Recife e Jaboatão dos Guararapes (PE) ainda tem casas em áreas de risco, barreiras sem proteção e imóveis não demolidos em zonas de perigo.
As mudanças climáticas foram responsáveis por intensificar os temporais que aconteceram na região Nordeste em 2022, mostra estudo revelado pela Folha. Além de Pernambuco, a Bahia também teve enxurradas neste ano.
As fortes chuvas provocaram 129 mortes entre o final de maio e o início de junho em Pernambuco. Jardim Monte Verde foi o local mais afetado pelo desastre, com ao menos 21 óbitos —que, segundo especialistas, poderiam ter sido evitados se houvesse planejamento, aplicação efetiva de recursos e prevenção na área de risco. Outros estados como Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe também foram atingidos.
Sem o aquecimento global, os eventos ocorridos seriam um quinto menos intensos, segundo os pesquisadores responsáveis pelo estudo.
Entre os moradores de Jardim Monte Verde, a sensação predominante é de abandono por parte do poder público. Rosângela Maria do Nascimento, 42, está desempregada e depende do Auxílio Brasil e de atividades extras para viver. Além da dificuldade do dia a dia, tem o percalço do pós-chuvas no bairro onde mora.
Por causa do desastre de maio, ela teve que deixar a sua residência, que foi considerada em situação de risco pela Defesa Civil. Nas últimas semanas, Rosângela optou por voltar para casa. Alega que não tem mais dinheiro para arcar com o aluguel do imóvel no qual estava.
"Ninguém vem resolver o que vai fazer, e fica cada um querendo voltar para a sua casa e sem receber nada. Paguei R$ 300 por mês [de aluguel] e, em agosto, voltei para a minha casa", diz. "Estamos à mercê das baratas."
Moradora do local há mais de 20 anos, Rosângela circula diariamente pelo bairro com o filho José Carlisson Oliveira da Silva, 5. Os dois voltaram para a residência, mesmo diante das condições de perigo com novas chuvas.
Além do medo, a dona de casa supera a dor da perda de 12 parentes na tragédia das chuvas. A maior preocupação dela é quanto ao período chuvoso do próximo ano, tradicionalmente entre maio e julho.
Outra queixa dos residentes da localidade é um possível impasse de ações entre as prefeituras do Recife e de Jaboatão dos Guararapes. Como Jardim Monte Verde fica na divisa das duas cidades, os moradores dizem que há uma dificuldade de acesso a serviços e se queixam de transferência de uma cidade para outra sem solução.
"Até a tragédia, a gente era [do] Recife. Depois, ficamos sabendo que [aqui] era Jaboatão. Na conta de luz, vem [com o endereço do] Recife. Na de água, de Jaboatão", diz o motorista de transporte coletivo Reginaldo Ramos Feitosa, 55.
Feitosa está afastado do trabalho desde que a filha, Thaís Regina, 31, morreu soterrada. A jovem era recém-formada em engenharia. Ele ficou sem condições psicológicas de retornar ao volante.
Na manhã da tragédia, Feitosa, a esposa e a filha estavam em casa. Em segundos, a residência foi abaixo junto com a barreira.
O motorista faz sessões de acompanhamento com psicólogo e psiquiatra. Dependendo dos diagnósticos da próxima sessão, ele poderá retornar à atividade laboral.
"A gente estava se programando para sair daqui, minha filha tinha começado a trabalhar há 15 dias. O sonho dela foi interrompido", afirma Reginaldo, que ficou soterrado em meio aos escombros, mas sobreviveu. A esposa dele ainda se recupera de uma fratura no joelho provocada pelo deslizamento.
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