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Um desafio para o clima: a China queima mais carvão

29/11/2022

A China está pronta para tirar partido da urgência global no combate às mudanças climáticas: é a maior fabricante e usuária global de painéis solares e turbinas eólicas, lidera o mundo na produção de energia a partir de barragens hidrelétricas e está construindo mais usinas nucleares do que qualquer outro país.
Mas também queima mais carvão do que o resto do mundo em conjunto e acelerou a mineração e a construção de usinas a carvão, elevando as emissões de gases de efeito estufa relacionados à energia do país em quase 6% no ano passado, o ritmo mais rápido em uma década. E é provável que o vício da China em carvão dure anos, ou mesmo décadas.
A China precisa equilibrar a limitação das emissões de gases de efeito estufa com suas preocupações em garantir a própria energia. O país há muito tempo vê o carvão, abundante em seu território, como a melhor maneira de evitar se tornar excessivamente dependente da energia de outros países e permanecer suscetível a condições climáticas imprevisíveis, como as secas, que reduzem a produção das hidrelétricas.
Em nenhum país os riscos climáticos são maiores do que na China. Principalmente por causa de seu uso de carvão, emite quase um terço de todos os gases de efeito estufa produzidos pelo homem —mais do que os Estados Unidos, a Europa e o Japão juntos. "Não há solução para a mudança climática sem reduzir a combustão de carvão da China", disse David Sandalow, alto funcionário de energia dos governos Obama e Clinton.
A grande questão está em saber se a China usará suas novas usinas a carvão 24 horas por dia ou só ocasionalmente, como um backup para a energia renovável. Apenas seu consumo de carvão produz mais emissões de carbono anualmente do que o total de emissões relacionadas à energia dos EUA em um ano.
O esforço chinês para construir mais usinas a carvão, a um custo de até US$ 1 bilhão cada, alarmou as autoridades ocidentais. John Kerry, enviado do clima do governo Biden, alertou no ano passado que "a adição de mais de 200 gigawatts de carvão nos últimos cinco anos, e agora de outros 200 ou mais entrando em operação na fase de planejamento —caso isso se concretize—, tudo isso de fato vai desfazer a capacidade do resto do mundo de atingir um limite de 1,5º C no aumento da temperatura global".
Xi Jinping, o principal líder da China, afirmou em um relatório de outubro ao congresso nacional do Partido Comunista que o país avançaria mais rapidamente para desenvolver a energia renovável e a nuclear. Mas também enfatizou a segurança energética —sinalizando fortemente uma dependência contínua do carvão, do qual a China tem mais reservas do que qualquer outro país. "O carvão vai ser usado de maneira mais limpa e eficiente", garantiu Xi, sem mencionar a redução do consumo.
A possibilidade de a China depender fortemente de energia renovável é visível dentro e ao redor de Hanhaozhuang, vila na fronteira entre Pequim e a província de Hebei, ao norte. É uma aldeia onde currais de ovelhas com paredes de tijolos se alternam com cercas de arame onde crescem cabaças.
Logo depois dos currais, há uma enorme extensão de painéis solares montados em estruturas de aço para mantê-los em direção ao sol, inclinados no ângulo sul correto. A fazenda de energia solar cobre cinco vezes a área da aldeia. Duas filas de macieiras crescem entre cada fila de painéis solares, fornecendo uma colheita comercial aos moradores.
Cerca de 20 quilômetros a sudoeste, em um pântano ao longo das margens de um reservatório, há uma longa fila de turbinas eólicas que transformam os fortes ventos que sopram do deserto de Gobi em eletricidade para Pequim. E, mais perto da cidade, as concessionárias construíram grandes usinas a gás. Essas medidas levaram o uso de carvão de Pequim a uma queda de 95% na década até 2020, o ano mais recente com dados disponíveis. A última mina de carvão da região fechou há três anos.

A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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