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Milhares de peixes aparecem mortos em canal na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio

17/01/2023

Milhares de peixes apareceram mortos no Canal de Marapendi, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, na manhã de sexta-feira. Às margens das águas é possível ver os animais, que já apresentam forte mau cheiro. De acordo com especialistas ouvidos pelo Globo, uma das causas para a alta mortandade é a quantidade de esgoto que foi levado pelas chuvas dos últimos dias para o canal e o sistema lagunar da região.
A mortandade dos peixes é relacionada à diminuição do oxigênio na água, que, por sua vez, está ligada à decomposição de matéria orgânica (esgoto). As chuvas recorrentes nos últimos dias podem ter aumentado a concentração desse material, já que carregou lixo e esgoto da cidade para dentro dos rios e, consequentemente, às lagoas e canais. As altas temperaturas também contribuem para a decomposição do esgoto nas águas, o que "rouba" o oxigênio, provocando asfixia dos peixes.
A poluição, efeito direto da ocupação desenfreada às margens do sistema lagunar, é uma das principais críticas feitas pelos especialistas. A época de maré alta ainda contribui para dificultar o escoamento.
Milhares de peixes apareceram mortos no Canal de Marapendi, na manhã desta sexta-feira
Também morador da região, no condomínio Riviera, David Zee, que é professor da Faculdade de Oceanografia da Uerj, explica que nem todo esgoto é tratado antes de ser lançado na lagoa pelo grande número de condomínios da região:
— Imagina só: você tinha antigamente uma casa com um penico. Com o passar dos anos, chegaram mais pessoas, sem novos penicos. Em algum momento, ele vai transbordar e sujar a casa, até ficar insuportável. Não é que o governo não tenha investido no tratamento do esgoto, mas é sempre numa velocidade menor do que o crescimento dessa região — observa.
A frente fria que passa pelo Rio de Janeiro, segundo Zee, colaborou para a mortandade, já que aumentou o nível de água da maré. Desta forma, o esgoto e o lixo a mais trazidos pelas chuvas — uma “vassoura natural” da cidade — ficaram na lagoa e passaram por esse processo de fermentação.
O biólogo Mário Moscatelli acrescenta que a chuva foi apenas um dos fatores para a mortandade:
— Sabe aquele cara que leva uma vida desregrada: bebe, fuma, come mal? Come uma azeitona e morre. Não foi a azeitona que o matou. Foi o conjunto da obra. A chuva pode ter dado o empurrão final — explica.
Zee avalia que "o meio ambiente é quem paga o preço" dessa equação. Ele explica ainda que os peixes que estão boiando no espelho d´água não morreram nesta sexta-feira:
— Essa grande quantidade de matéria orgânica vai matando os rios, que viram verdadeiros valões de esgoto. As lagoas se transformam numa fossa, é o que acontece na Barra. O calor começa a fermentar a matéria orgânica e consumir o oxigênio livre na coluna d’água. Os peixes que entram na lagoa para desovar, morrem sufocados e afundam. Só depois de três dias em decomposição começam a boiar.
Na Avenida Prefeito Dulcídio Cardoso, no Condomínio Parque Das Rosas, na Barra da Tijuca, que margeia o canal de Marapendi, os peixes mortos atraíam curiosos que praticavam exercícios ou passavam pelo local. Ao se preparar para a aula de canoagem, que faz no canal diariamente há um ano, Mauro Freire contou que é a primeira mortandade que constatou de dentro da água.
— A gente vê muita poluição na lagoa. Em alguns lugares por que passamos com a canoa, há um cheiro de esgoto muito forte. Até a coloração da água muda — relatou Mário.
Também praticante de canoagem, Maurício Rebouças tirou peixes do caminho para conseguir entrar na água:
— Vamos tentar ir até ali na frente prendendo a respiração — brincou.
Paulo Dias, que mora desde 2005 no endereço, se exercitava andando de bicicleta às margens do Canal de Marapendi e contava que, mesmo morando em um bairro com praia, precisa ser seletivo nos dias de lazer:
— Não tenho coragem de ir no Quebra Mar, muito menos na Praia do Pepê. A água de lá recebe muito esgoto.
O homem estava acompanhado de seus dois filhos, Arthur e Diogo, de 12 e 14 anos respectivamente. O mais velho "chega a chorar de ver" os peixes mortos, já que sonha em ser biólogo, segundo o pai.
A previsão dos especialistas é que os peixes mortos entrem nas águas das praias da Barra da Tijuca ainda nesse fim de semana.
O Instituto estadual do Ambiente (Inea) informa que vistoriou o Canal de Marapendi nesta manhã, "para atender denúncia de mortandade de peixes". Segundo o órgão, "foram coletadas amostras de qualidade de água do Canal e encaminhadas para o laboratório do Inea para emissão de um parecer conclusivo sobre as causas da mortandade". O Inea observa também que, provavelmente, as causas da mortandade são: queda de oxigenação na água, somada à alta temperatura e à chuva, que teria carregado matéria orgânica ao local.
Já a Companhia municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) deslocou uma equipe com 20 garis para o local nesta tarde, para o início da operação de remoção dos animais mortos. A empresa ressalta, no entanto, que "a responsabilidade pela gestão ambiental da Lagoa de Marapendi é do Inea", com a Comlurb realizando a remoção "apenas quando os resíduos chegam às areias das praias".

Fonte: O Globo

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