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Produtores rurais driblam pressão imobiliária para proteger o Cantareira

24/01/2023

Em quase todas as ruas de Nazaré Paulista, a cerca de 70 km de São Paulo, é possível ver postes e grades com placas de compra e venda de chácaras, terrenos e sítios. Os anúncios são acompanhados de outros que oferecem apoio jurídico para regularizar terras.
Na região, trabalhar na terra é uma escolha cotidiana contra o dinheiro da venda dos sítios, demanda liderada pelo setor imobiliário, que vê na busca por uma vida no campo uma oportunidade para condomínios. Para quem decide ficar, proteger a vegetação é uma tarefa ainda mais delicada.
Nazaré Paulista está às margens de Atibainha, represa que integra o sistema Cantareira junto com os reservatórios Jaguari, Jacareí, Cachoeira e Paiva Castro. O conjunto é responsável pelo abastecimento de 7,2 milhões de pessoas na Grande São Paulo.
Dos 230 mil hectares de floresta do sistema, 100 mil são pastagens degradadas. A pequena propriedade predomina na região, e convencer famílias a substituir práticas convencionais por ecológicas é um desafio.
"Estamos restaurando de um lado, e desse outro o proprietário solta os animais", diz o engenheiro florestal Gustavo Brichi.
Ele é um dos técnicos do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, organização que trabalha com o projeto Semeando Água na restauração ecológica da vegetação e na conscientização de produtores na região de Nazaré Paulista.
"O nível da represa baixou, e os animais passam pela beiradinha e ficam ali do outro lado ou acessam pela estrada. Dá pra ver nitidamente as linhas de cultivo, mas só vingaram algumas espécies, porque os animais batiam a terra constantemente", afirma.
A ideia de semear água vem da restauração de matas ciliares, que aumentam a infiltração do solo e ajudam a regular a recarga dos reservatórios, "semeando" a água durante o ano.
A área indicada pelo engenheiro, em uma das margens de Atibainha, exibe uma paisagem que se repete na região: remanescentes de mata atlântica, gado, casebres, barracos, mansões e marinas.
Além de ocupações irregulares, o restauro ecológico –capaz de criar uma dinâmica de espécies vegetais e animais– enfrenta uma cadeia de produção ligada a modelos tradicionais. Mas quem decide mudar as práticas conta com o apoio dos técnicos do instituto para combinar os negócios com a restauração.
Essa mudança foi a única saída para Eloisa Pinheiros, 31, que administra o sítio Primavera com o marido, Israel Júnior, 30.
O terreno foi adquirido pelo avô em 1950, e a família produzia batata-doce, milho, pimentão e tomate. Natural de Nazaré Paulista, Eloisa estudou na escola estadual Clélia Barros, na cidade, graduou-se em finanças em 2013 e começou a carreira no mercado.
Em 2017, deixou o escritório e voltou a Nazaré, dedicando-se com Israel ao cultivo de flores. O modelo convencional, porém, com uso de agrotóxicos para fertilizar e proteger as plantas de pragas, ficou saturado.
"Eram três toneladas a cada 30 dias", diz Israel. "Com a produção muito alta de flor, vinha muita praga e doença, e nada dava efeito. Chegou uma hora que começamos a perder e então fomos buscar alternativas".
Hoje, o casal aduba o solo com microrganismos eficientes, também chamados de EMs, usa matéria orgânica de capinagem e maneja as pragas com um ambiente diverso que equilibra as espécies.
Os microrganismos eficientes podem ser obtidos a partir de fungos que crescem em arroz cozido e armazenado, e segundo Eloisa e Israel, são utilizados em menor quantidade.

A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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