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Provavelmente sem saber, paulistanos caminham sobre as águas

26/01/2023

Quem circula pela avenida Professor Frederico Herman Júnior, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, provavelmente não sabe que está contrariando as leis da física e caminhando sobre as águas. Debaixo do asfalto, escondido, está o córrego das Corujas, que aparece ao ar livre saindo de uma manilha de concreto a menos de dois quilômetros dali, na praça batizada com o mesmo nome.
O córrego, que vai crescer e mudar de nome ao se juntar ao rio Pinheiros, é só um das centenas de cursos de água engolidos pela paisagem urbana da maior metrópole brasileira. O cenário era muito diferente em 1554, quando São Paulo foi fundada na colina entre dois rios: o Tamanduateí e o Anhangabaú. Eles foram centrais para o nascimento da cidade, servindo de acesso às terras do interior do estado, até então inexploradas pelos colonizadores.
Especialmente para os moradores da região central da cidade, onde a maioria dos cursos de água estão enterrados, pode ser difícil entender a cara da hidrografia paulistana. O modelo de urbanização adotado ao longo de 469 anos passou por cima dos rios, tentando domesticar as águas que estavam pelo caminho.
O pesquisador Anderson Nakano, professor do Instituto das Cidades da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirma que três coisas caminham juntas na estruturação de São Paulo: a expansão da cidade, a segregação dos mais pobres em periferias e a canalização dos rios.
"Houve uma ocupação do espaço sem respeitar a presença de rios, córregos e nascentes. Eles vão sendo aterrados e ocupados com construções", diz ele. Um exemplo é o próprio rio Anhangabaú, que foi canalizado e hoje passa debaixo da avenida 23 de Maio. "Esses rios não são vistos como algo dinâmico, com aumento da vazão no período de chuvas e diminuição no período de seca."
O desenvolvimento concentrado em grandes avenidas e rodovias fez com que mesmo projetos que poderiam comportar melhor esse dinamismo fossem deixados de lado.
O primeiro plano de canalização do Tietê previa grandes parques nas margens, comportando a variação e fazendo com que a população tivesse uma convivência com o rio. Mas, em vez disso, é adotado um plano diretor voltado a grandes avenidas e rodovias —e, no lugar do espaço verde, o Tietê ganha uma marginal.
"É um processo de urbanização que vai acontecendo para abrir terras para empreendimentos imobiliários e automobilísticos, em vez de pensar em como reservar espaço para as águas na cidade", afirma o professor. "Aí, em época de chuvas, elas voltam a reivindicar o seu lugar, só que esses espaços estão ocupados por avenidas."
Em uma cidade com 11.600 km de rios e córregos, isso acontece com frequência. De acordo com dados do Centro de Gerenciamento de Emergências da Prefeitura de São Paulo, desde a primeira Operação Chuvas de Verão, entre o final de 1999 e o começo do ano 2000, foram registrados, em média, 874 alagamentos por ano entre os meses de novembro e abril.
De acordo com o engenheiro Pedro Algodoal, especialista no sistema de drenagem paulistano da Siurb (Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras), mesmo chuvas rápidas causam alagamentos em bacias menores, como no Anhangabaú. No caso de bacias maiores, como Tietê e Pinheiros, o volume de chuva precisa ser maior para causar enchentes.

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