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Plantas ´professoras´ ensinam a nos relacionar com a floresta, diz antropólogo

31/01/2023

"Eu não pensava ter me transformado ‘realmente’ em onça de maneira mensurável. Tinha mais uma memória corporal intensa da impressão de ‘ser um felino’, que eu podia convocar à vontade e utilizar como fonte de força e de coragem." Jeremy Narby, antropólogo canadense radicado na Suíça ouviu essa descrição de um curandeiro peruano, Carlos Perez, e a tomou com ceticismo, como conta em seu último livro.
Primeiro, por causa de sua formação científica anterior, desencantada, materialista. Depois, porque Perez narrava uma alteração de consciência deflagrada por tabaco, e não pelas plantas (chacrona e cipó-mariri) usadas para preparar o chá psicoativo ayahuasca, este sim reconhecido pela neurociência estabelecida como um poderoso psicodélico.
Tal efeito do tabaco ingerido, desconhecido por ocidentais que o fumam, foi uma das várias pistas que levaram Narby, em décadas de convívio com os ashaninkas, a se convencer de que este e outros povos da Amazônia têm muito a ensinar para a ciência.
De resto, não só os indígenas, mas igualmente as "plantas professoras" como tabaco, chacrona e mariri. No entendimento deles, os vegetais são dotados de espírito e inteligência, são sujeitos e não apenas objetos para se conhecer e explorar.
"As sociedades indígenas nos oferecem maneiras diferentes de habitar a terra: mostram que é possível ser humano e, ao mesmo tempo, ter uma abordagem diferente daquela ideia de que a natureza é essa coisa que você pode usar e esgotar infinitamente, que parece estar bem ao centro da crise da biodiversidade."
"Eu queria provar que eles usavam seus recursos racionalmente e que detinham todo tipo de conhecimentos sobre a floresta tropical, as plantas e os animais", conta Narby nesta entrevista. Foi quando os ashaninkas lhe disseram que só teria uma compreensão verdadeira desse saber depois de tomar ayahuasca, e ele topou.
"Minha visão de mundo desabou diante dos meus olhos, porque comecei a ver coisas que achava que não existissem", diz ele, que participou em novembro do evento Selvagem Ciclo de Estudos sobre a Vida, no Rio.
Correndo o risco de perder credibilidade como cientista social, a partir dessa transformação Narby se engajou na organização suíça Nouvelle Planète (Novo Planeta). O foco da ONG é levantar fundos para apoiar projetos indígenas e proteger suas terras.
Em três décadas a entidade conseguiu recursos para preservar 60 mil km2, cerca de 1% da floresta amazônica. Uma contribuição nada desprezível para conter emissões de carbono e, assim, combater o aquecimento global e a crise do clima —em comparação, no governo Bolsonaro pereceram em torno de 45 mil km2 só na Amazônia, sem contar o cerrado e outros biomas.
Em paralelo, o antropólogo seguiu publicando artigos e livros, como "A Serpente Cósmica, o DNA e a Origem do Saber". Sua obra mais recente em português é "Plantas Mestras: Tabaco e Ayahuasca" (Dantes Editora), em coautoria com Rafael Chanchari Pizuri. O próximo, sobre cânabis, tratará de "todas as incompreensões que cercam a planta e suas potencialidades".

A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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