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Aglomerados de tempestades vêm diminuindo na Amazônia, aponta estudo

16/05/2023

A formação de tempestades depende da umidade e da energia disponíveis na atmosfera. Mas existem condições que fazem com que essas chuvas fortes se aglomerem, formando os chamados sistemas convectivos de mesoescala (SCMs) — grosso modo, grandes tempestades que se retroalimentam, estendendo-se por quilômetros e podendo durar horas.
De acordo com novo artigo publicado na revista Climate Dynamics, eles são responsáveis por 40% da precipitação na Amazônia e vêm sendo impactados pelas mudanças climáticas: sua ocorrência vem sendo reduzida. Trata-se do primeiro estudo relacionando a ocorrência de sistemas convectivos de mesoescala com as mudanças climáticas na Amazônia, segundo os autores.
"Tínhamos indícios de que a precipitação na região estava sendo afetada durante os meses de setembro, outubro e novembro, com a estação chuvosa sendo reduzida e a seca aumentando. Então, nos perguntamos se os sistemas convectivos de mesoescala poderiam estar relacionados a esse fenômeno. Na Amazônia, não havia nenhum estudo sobre sistemas convectivos e mudanças climáticas", afirma Amanda Rehbein, pós-doutoranda no Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e primeira autora do trabalho.
Segundo a pesquisadora, comparando-se o período passado (1950 a 1960) ao presente, houve redução de quase 3% na ocorrência dos SCMs. "É claro que, quando separamos por estações, conseguimos uma visão mais pontual do que acontece em cada período do ano. Mas, numa visão geral do passado para o futuro próximo, os SCMs tendem a diminuir. Por outro lado, a intensidade deles, no sentido da precipitação, está aumentando. E essa precipitação aumentada está igualmente projetada para o futuro, entre 2040 e 2050, que foi o período que modelamos", revela ela.
Para Tércio Ambrizzi, professor do IAG-USP e coautor do artigo, compreender esses sistemas e como se comportarão no futuro dará uma ideia da variabilidade da precipitação na Amazônia e também poderá indicar, sazonalmente, como ela será impactada. "Descobrimos que a precipitação é muito afetada entre setembro e dezembro e entre junho e agosto, mas menos de março a maio."
O trabalho foi financiado pela Fapesp por meio de quatro projetos (16/10557-0, 17/09659-6, 14/50848-9 e 18/17134-3).
A dupla usou dados observacionais de sensoriamento remoto, principalmente de satélites, e também dados de estações de medição utilizadas pelo GOAmazon (programa integrado ao Experimento de Larga Escala na Biosfera-Atmosfera na Amazônia [LBA] e apoiado pela Fapesp), além de modelos climáticos. Do GOAmazon, focado na região central da Amazônia, resultou o primeiro recenseamento de nuvens do Brasil.
"Para estudar esses sistemas precisamos de dados com alta resolução temporal e espacial e esses dados de satélite só existem a partir dos anos 2000 para a Amazônia. Então, para estudar o clima passado e o futuro, tivemos de usar modelos. Mas esses modelos que levam em conta o input das mudanças climáticas geralmente têm uma resolução muito baixa, são muito genéricos, simulam mais as circulações gerais e, com eles, não conseguimos representar essas tempestades", explica Rehbein.
De acordo com a cientista, no início dos anos 2000, um grupo de cientistas japoneses desenvolveu um modelo chamado Nicam (Nonhydrostatic ICosahedral Atmospheric Model), que leva em conta essas circulações gerais da atmosfera, mas representadas com uma resolução mais alta.
"Estávamos usando outra ferramenta quando nos deparamos com esse modelo e achamos que ele nos seria mais útil. Acabei fazendo um estágio na Universidade de Tóquio, no Japão, com uma das pessoas que desenvolveram esse modelo. Aprendi a rodar e a usar o Nicam e, então, fizemos algumas simulações para o estudo", revela.
Rehbein explica que os modelos são divididos em quadrados. "Se os pontos estão muito distantes não se enxerga a nuvem que ocorre no meio e aí o modelo tem de ‘adivinhar’. À medida que a resolução aumenta, esses pontos são aproximados e a chance de detectar as nuvens é maior. Quanto maior a resolução, maiores as chances de detectar os sistemas convectivos."

Termine de ler esta reportagem na Folha de S. Paulo

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