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Ilha do Havaí processou petroleiras em 2020, citando riscos de incêndio

22/08/2023

As palavras foram surpreendentemente prescientes: por causa da mudança climática, a exuberante e verdejante Maui, no Havaí, estava enfrentando incêndios florestais de "frequência, intensidade e força destrutiva aumentadas".
Elas constavam de um processo movido em 2020 pelo condado de Maui que pedia indenização da Exxon, Chevron e outras gigantes do petróleo e gás, acusando-as de um "esforço coordenado e multifacetado para ocultar e negar seu próprio conhecimento" de que a queima de combustíveis fósseis aqueceria o planeta a extremos perigosos.
Agora, depois que incêndios florestais provocados por condições ligadas à mudança climática devastaram a ilha havaiana, o processo ganha um peso renovado.
Os incêndios em Maui "são evidências claras e concretas de algo que de outra forma poderia parecer abstrato", que poderão "fortalecer muito" o caso de Maui, disse Naomi Oreskes, professora de história da ciência em Harvard que escreveu sobre desinformação sobre mudanças climáticas.
Mas, ela alertou, "durante décadas, a indústria de combustíveis fósseis trabalhou para minar a compreensão científica da mudança climática e seus efeitos nocivos. Uma maneira de fazer isso, repetidamente, é questionar a ligação entre a mudança climática em geral e consequências danosas específicas".
Ryan Meyers, vice-presidente sênior e conselheiro geral do Instituto Americano do Petróleo, um grupo de lobby da indústria, classificou os incêndios florestais de Maui como uma tragédia, mas enfatizou que sua causa imediata ainda está sob investigação.
Ele chamou o litígio movido por Maui como parte de uma "campanha coordenada para abrir processos sem mérito contra a nossa indústria" e "nada mais que uma distração de questões importantes e um enorme desperdício de recursos dos contribuintes".
Maui está entre mais de duas dúzias de estados e municípios, incluindo Honolulu, que fica a cerca de 160 quilômetros de Maui, que estão processando as empresas de combustíveis fósseis por danos climáticos.
Esta semana, um grupo de jovens do estado de Montana ganhou um processo histórico depois que um juiz decidiu que a falha do estado em considerar a mudança climática ao aprovar projetos de combustíveis fósseis era inconstitucional.
Embora ações como a movida por Maui tenham sido adiadas por questões processuais, os incêndios podem ser uma parte importante do pedido de indenização do condado se o caso for a julgamento, disseram juristas. Os argumentos de Maui também devem ressoar com um júri local.
"Aqui no Havaí, as pessoas estão em modo de recuperação de desastres, e o arco mais longo de um processo necessariamente tem que ficar em segundo plano", disse Richard Wallsgrove, professor de direito e consultor do Programa de Direito Ambiental da Universidade do Havaí em Manoa.
"Mas também está claro que o que está em jogo nesses casos, e todos os casos de litígio climático que estão sendo abertos no Havaí e em outros lugares, é visto ali mesmo nos incêndios florestais de Maui."
Os cientistas são cada vez mais capazes de atribuir desastres específicos, como clima extremo ou incêndios florestais, ao aquecimento global e até mesmo vincular eventos a produtores de combustíveis fósseis.
Embora essa atribuição possa levar tempo, os cientistas apontaram o declínio da precipitação média no Havaí, bem como a seca, os ventos muito fortes e outras condições ligadas à mudança climática como fatores que alimentaram o incêndio em Maui.
Ao mesmo tempo, pesquisadores acadêmicos e do Congresso, grupos ambientais, jornalistas e advogados relataram como as empresas de petróleo e gás, apesar de saberem há décadas que a queima de combustíveis fósseis aqueceria perigosamente o planeta, têm trabalhado para minimizar ou negar esse conhecimento.

Termine de ler esta reportagem acessando a Folha de S. Paulo

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