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Pó preto da Companhia Siderúrgica Nacional invade casas em Volta Redonda (RJ)

22/08/2023

O aposentado José Maria da Silva, 64, varre todos os dias a casa onde vive, em Volta Redonda (a 100 km do Rio de Janeiro), porque um pó preto fino insistentemente aparece sobre os móveis e o chão. O material sai da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) e invade as residências dos bairros ao redor da usina.
José Maria trabalhou durante 24 anos na CSN e se aposentou como técnico químico. Hoje participa de movimentos contra a poluição do ar no município onde mora há 60 anos.
"Quando eu cheguei em Volta Redonda, vindo de Minas Gerais, olhei para as chaminés e pensei que este seria o lugar em que viraria gente. Ao longo da vida, naturalizei toda a fumaça que estava no ar."
O pó preto sai da siderúrgica no processo da produção de aço. Estudos apontam que a poluição atmosférica da cidade pode estar ligada a internações por doenças respiratórias.
Siderúrgica mais antiga do Brasil, a CSN, inaugurada em 1941 como estatal, começou a produzir aço em 1946, em Volta Redonda. A companhia ficou marcada por conflitos de funcionários com o Exército durante uma greve em novembro de 1988. Três trabalhadores foram mortos quando as tropas tentam entrar na usina. Em 1993, a CSN foi leiloada.
A emissão do pó é admitida pela companhia e está no radar do Ministério do Meio Ambiente, que estuda abrir diálogo com a CSN e o governo estadual do Rio de Janeiro para cobrar uma solução.
Vereadores do sul fluminense se reuniram com a ministra Marina Silva no início de agosto, em Brasília. Os políticos esperam que ela faça uma visita à cidade até o final do ano, para que veja de perto a circulação do material.
A CSN, em nota, afirma que a circulação do pó é "mais comum nesta época do ano nas cidades industriais, em razão do tempo seco", e que está investindo R$ 700 milhões em equipamentos e filtros, para diminuir a poeira, e também no incremento da limpeza nas vias da usina.
O Inea (Instituto Estadual do Ambiente), responsável pela fiscalização da poluição, afirma em nota que "avalia sistematicamente a qualidade do ar no município de Volta Redonda" e que multou a CSN em R$ 1 milhão por conta do pó preto. A siderúrgica assinou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) segundo o qual se compromete a reduzir a poluição até setembro de 2024.
Ainda de acordo com o Inea, uma estação de medição de concentração de gases e materiais particulares foi instalada no município.
Patrícia Alves Carneiro, do departamento de química da UFF (Universidade Federal Fluminense), afirma que o pó que circula em Volta Redonda contém óxido de ferro, misturado a outros componentes. Moradores já fizeram testes: reuniram o pó sobre um papel e conseguiram mover o material aproximando um ímã.
"O efeito do campo magnético traz a evidência do ferro. Chama atenção porque, se está saindo material particulado de dimensões maiores, pode estar saindo o de dimensões menores, invisível aos olhos", avalia Carneiro.
Existem diferentes tipos de partículas em suspensão no ar: as chamadas MP10, que têm um tamanho de 10 micrômetros (um micrômetro equivale à milésima parte de um milímetro), e as MP2,5, com um tamanho menor de 2,5 micrômetros. As mais finas, ressalta a pesquisadora, podem ser mais perigosas por serem mais respiráveis.
"Artigos da década de 1980 já mostravam que o material particulado carrega com ele outras substâncias químicas e orgânicas, como hidrocarbonetos policíclicos", diz. Os HPAs (hidrocarbonetos policíclicos aromáticos) são definidos pelo governo federal como contaminantes.
"Há HPAs cancerígenos, outros mutagênicos", explica a pesquisadora.

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