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Brasil abate mais de 60% da população de jumentos em 6 anos para exportar pele para China

29/08/2023

Desde 2008, a comunidade de Serra do Rosário, no município de Sobral, região norte do Ceará, realiza o concurso do jumento mais “enfeitado” da região. Na disputa, os criadores vestem os jumentos com fantasias criativas e competem pelo prêmio em dinheiro. O organizador do concurso, Audino Lopes, contudo, teme pela continuidade da festa. “Rodei em alguns sítios e o jumento não tem mais. Não sei se daqui a alguns vou conseguir fazer o concurso”, relata.
A percepção de Audino não é só impressão. Com base nos dados oficiais, a população de asininos no Brasil - isto é, jumentos, jegues, burros ou asnos, como são conhecidos regionalmente – caiu 62% entre 2017 e 2022.
Hoje, este animal que foi companheiro de trabalho e meio de transporte no interior do país por séculos, corre risco de entrar em extinção no Brasil devido ao abate para exportação, segundo especialistas.
Conforme dados do último Censo Agropecuário do IBGE, em 2017 existiam 376 mil asininos no Brasil. De 2017 até julho de 2023, pelo menos 237 mil asininos foram abatidos em frigoríficos autorizados, conforme dados do Ministério da Agricultura.
Praticamente todo abate de jumentos no Brasil ocorre na Bahia. O Ceará e o Piauí, nos últimos anos, aparecem nos dados do Ministério da Agricultura como os dois principais “exportadores” de jumentos para o estado.
Os abates ocorrem com objetivo de suprir a demanda do mercado chinês por peles de jumento, utilizadas para a produção do ejiao, um produto da chamada medicina tradicional chinesa. O ejiao é feito a partir do colágeno extraído da pele do jumento – e para atender à demanda crescente pelo item, empresas chinesas têm importado a pele dos animais de países como o Brasil.
“Esses animais são abatidos no mundo todo para abastecer essa demanda, que é uma demanda de 4,8 milhões de peles de jumentos por ano”, aponta a bióloga Patrícia Tatemoto, que trabalha com a Donkey Sanctuary, organização britânica que atua na proteção de espécies de asininos pelo mundo e pela proibição do abate.
Desde 2017, o abate de equídeos em geral – classe de animais que inclui os asininos, muares (mulas) e equinos (cavalos e éguas) – é regulamentado no Brasil por decreto do então presidente Michel Temer. Atualmente, apenas dois estabelecimentos realizam o abate de asininos no Brasil, ambos na Bahia.
Apesar da regulação, ativistas de proteção alertam que, no ritmo em que está atualmente, o abate de jumentos pode levar à extinção da espécie no Brasil. Na pecuária, o termo ‘produção’ é utilizado para descrever a cadeia de criação de uma espécie destinada ao abate, como bovinos, suínos e aves, que são criadas, alimentadas, reproduzidas, abatidas e repostas.
No caso dos jumentos, segundo os ativistas, não há cadeia de produção estabelecida. Portanto, o abate ocorre sem reposição, contando com os espécimes que já existem atualmente. Assim, o número de jumentos cai conforme são abatidos aos milhares a cada ano, sem que nasçam e sejam criados asininos o suficiente para manter os números da população destes animais.
"Essa atividade só ocorre porque é extrativista. Então se a gente for produzir os jumentos em fazendas [...], que é cria, recria, terminação, engorda e aí envia para abate, é custo-proibitivo cumprir essas etapas”, aponta Tatemoto.
A bióloga aponta que o filhote de asinino, para chegar ao ponto de abate, demora até quatro anos, o que, cumprindo todas as etapas citadas, tornaria a produção inviável financeiramente.
Defensores da causa animal também apontam que o transporte de animais para o abate tem ocorrido de forma ilícita, com várias denúncias de maus tratos e suspeitas de irregularidade nas regulações sanitárias exigidas para o transporte destes animais.

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