
05/09/2023
"A economia é baseada no mundo natural e, portanto, se não houver água, solo, madeira, animais, de onde virá a economia?", questiona o ambientalista e pacifista indiano Satish Kumar, 87, fundador do Schumacher College, uma renomada faculdade de sustentabilidade com sede no Reino Unido.
"A economia é um meio para um fim, e o fim é o bem-estar humano e o bem-estar planetário. Mas não temos isso", diz o educador, para quem a economia praticada no mundo atual se distanciou tanto de seu sentido original (eco, do grego "oikos", é lar ou local de morada, e "oikonomia" é sua administração) que deveria se chamar "dinheironomia".
Crítico dos meios de produção em massa, Satish nomeou sua escola em homenagem ao amigo e economista britânico, nascido na Alemanha, E.F. Schumacher (1911-1977), autor do livro "Small is Beautiful" e para quem a economia é uma subárea da ecologia. As ideias de Schumacher inspiraram movimentos como o "fair trade" (compra justa, em inglês) e "buy local", de incentivo à compra de produtos locais.
Depois de receber mais de 500 brasileiros no campus do sudoeste da Inglaterra, em 2014 uma unidade da Schumacher College foi aberta no Brasil.
Satish diz que a humanidade hoje vive uma fantasiosa separação entre ser humano e natureza. Para ele, a incompreensão dessa interdependência está na raiz da atual crise climática.
"O homem escravizou a natureza, como se ela não tivesse vida e pudesse ser explorada infinitamente", diz. "Enxergamos a natureza como algo separado de nós, algo inferior. Só que nós também somos natureza."
O ambientalista, que se tornou monge jainista aos nove anos, defende a redução do crescimento econômico, da produção e do consumo excessivos. Propõe o que chama de "simplicidade elegante", um modo de vida de baixo impacto, com foco no "ser" e não no "ter", que dá título a um de seus poucos livros lançados no Brasil pela editora Palas Athena.
No auge da Guerra Fria, Satish iniciou uma marcha pela paz, inspirada nas ideias de Mahatma Gandhi. Partiu da Índia, sem dinheiro, e atravessou 13 mil quilômetros e três continentes a pé e de barco ao longo de dois anos e meio para encontrar líderes das potências nucleares da época em Moscou, Paris, Londres e Washington.
Sua filosofia é objeto do documentário "Teaching Nature", de Lucas Barragan, que estreia agora no Brasil na plataforma Aquarius, a mesma que lançará em abril o filme "Amor Radical", do brasileiro Julio Hey, sobre a jornada de vida do ativista indiano. Satish vem em 2024 ao Brasil para o lançamento e uma série de conferências e encontros.
Satish avalia que o Brasil deve priorizar o combate à fome e a proteção de seus biomas e povos indígenas. "O Brasil não deve destruir suas florestas para exportar alimentos para a China."
Leia trechos da entrevista clicando na Folha de S. Paulo
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