
05/09/2023
O agricultor Pepe Gilabert já enfrenta a realidade de um futuro árido. O solo dos seus olivais tem consistência de sal, e este ano ele só deve colher 30% de seu volume normal de azeitonas.
No passado, suas plantações de oliveiras eram irrigadas unicamente com reservas de água subterrânea, mas essas reservas estão tão reduzidas que os agricultores de sua área da Andaluzia, na Espanha, hoje estão tendo que regar suas árvores com água encanada.
A seca forte e precoce deste ano significa que eles agora estão recebendo apenas metade da água de que necessitam. "É uma espiral diabólica", disse Gilabert.
A seca e os incêndios que se alastraram pelo sul da Europa neste verão são os sinais mais evidentes de um problema complexo e arraigado de escassez de água que está se agravando com o avanço da mudança climática. "Nenhum país da Europa pode se considerar a salvo", disse Xavier Leflaive, que dirige a equipe hídrica na diretoria ambiental da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
O número e a intensidade das estiagens vêm aumentando fortemente na UE (União Europeia), com as áreas e pessoas atingidas subindo quase 20% entre 1976 e 2006, segundo a Organização Meteorológica Mundial. A ONG World Resources Institute (WRI) previu em 2020 que a demanda global por água doce vai superar a oferta disponível em 56% até 2030 —uma diferença superior aos 40% previstos em 2009 pela consultoria McKinsey.
As tensões alcançaram tal ponto na França e Espanha que explodiram entre agricultores, os maiores consumidores de água do continente, e grupos ambientais. Parece provável que a situação se agrave ainda mais nos próximos anos devido a um misto de políticas públicas falhas, interesses arraigados e mudança climática acelerada.
Habituados de longa data a ter invernos frios e níveis altos e constantes de chuva, os responsáveis pelas políticas públicas europeias geralmente não se preocuparam muito com o abastecimento de água.
"A maioria dos regimes hídricos da Europa ainda são os que vigoravam nos tempos de abundância. Precisam ser reformados agora para refletir a escassez", disse Leflaive. "São reformas muito complexas e que encerram dificuldades políticas, mas a meu ver são imprescindíveis."
O impacto desse déficit de água é agudo para o setor agrícola. Mas também vai atingir os consumidores e outras indústrias, incluindo a produção energética, já que é preciso água para resfriar usinas elétricas nucleares e para gerar energia hidrelétrica.
E o problema não se limita aos países mais secos da Europa. Um misto de regulamentações locais, tubulações com vazamentos e condições meteorológicas extremas vem convertendo mesmo as partes mais úmidas da Europa, como Polônia ou Alemanha, em áreas de "estresse hídrico". A Bélgica, país conhecido por seu tempo nublado, é o que sofre mais estresse hídrico na Europa, devido à sua alta densidade demográfica e infraestrutura deficiente, segundo índice do WRI publicado este mês.
Para Gilabert, em sua fazenda na Andaluzia, é simples: sem água, "não ganhamos dinheiro".
A Europa está esquentando mais rapidamente que qualquer outro continente. Mas essa realidade vem sendo agravada por outras questões. A água produzida pelo degelo da neve dos Alpes, crucial para as reservas de água do continente, vem diminuindo. Para agravar o problema, os solos ressecados não retêm água suficiente das chuvas, e isso está causando a diminuição das reservas de água subterrânea.
"A dificuldade que enfrentamos é que o nível da água subterrânea está abaixando, porque ela é a fonte mais facilmente disponível. Nós a estamos usando muito mais rapidamente do que ela está sendo reposta", disse Geoff Townsend, da empresa de serviços de água Ecolab.
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