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Monotonia alimentar contribui para perda da biodiversidade mundial

14/09/2023

Um artigo de pesquisadores da Universidade de São Paulo chama atenção para um tema pouco visível: a monotonia alimentar. Nada menos do que 90% do que os humanos comem provêm de, no máximo, 15 culturas, com 50% centrados em soja, trigo e milho. Por trás disso, há um sistema de produção de alimentos que privilegia extensas monoculturas de poucos grãos e cereais, responsáveis por desmatamento, perda de biodiversidade e, em última instância, o aquecimento global.
Para os autores do documento, um dos 20 selecionados entre 300 no âmbito do G20 para compor um livro que sairá em novembro, a monotonia alimentar é um contrassenso. Há 7.039 espécies de plantas catalogadas no mundo como comestíveis, e 417 delas são cultiváveis em escala. Além disso, há constante pesquisa e descobertas mundiais de novas plantas e fungos que podem ser consumidos.
Em 2021, por exemplo, um levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) mostrou que, das 2.253 espécies de árvores e palmeiras catalogadas na Amazônia, 1.037 servem como alimento e 1.001 têm propriedades medicinais.
— Subaproveitamos uma imensa quantidade de produtos que poderiam servir para as dietas humanas — diz Ricardo Abramovay, professor da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis da USP, um dos autores do estudo.
A expansão das monoculturas, conhecida como “Revolução Verde”, ganhou o mundo entre os anos 60 e 70. A estratégia para erradicar a fome na época, quando mais da metade da população mundial não consumia calorias suficientes, foi centrar a produção em poucos produtos e mudar a agricultura em escala global, com uso de novas tecnologias, sementes geneticamente modificadas, insumos químicos, como fertilizantes e agrotóxicos, e máquinas agrícolas. O modelo foi vitorioso, mas ainda há 800 milhões de pessoas em situação de fome, cerca de 10% da população mundial.
A agricultura homogênea trouxe novos problemas. Hoje, apenas cinco países — China, Índia, EUA, Brasil e Argentina — concentram mais de 60% da oferta agrícola global e, com o avanço da crise climática, as plantações estão justamente em áreas suscetíveis, principalmente à seca. Além disso, quatro empresas dominam o comércio mundial das commodities agrícolas.
A seca que atingiu o cerrado e o Sul do Brasil entre 2021 e 2022 deu prejuízo de R$ 70 bilhões à agricultura de quatro estados, lembra Abramovay. Nos dois últimos anos, também a Argentina teve sua produção afetada pela falta de chuvas, assim como o meio-oeste dos EUA.
— Depender de poucos países é como pôr todos os ovos numa só cesta — afirma.
Como há maior risco de proliferação de pragas em monoculturas, o uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes se torna necessário. Estes, por sua vez, contaminam solo, água e levam à perda de habitats e ecossistemas, com danos à saúde humana.
Além disso, o sistema agroalimentar responde por cerca de 1/3 das emissões de gases do efeito estufa. Segundo os pesquisadores, a expansão agrícola por meio do desmatamento tem sido o principal motor global da destruição da biodiversidade.
Mais de 10% do cerrado brasileiro já foram ocupados por lavouras de soja. A Amazônia, mais diverso bioma do planeta, perdeu 17% de sua cobertura nativa para uma alimentação baseada em carne de boi.
A agricultura moderna, ressaltam os pesquisadores, deve promover a diversidade alimentar, regenerando os serviços ecossistêmicos destruídos pelas culturas predominantes e incorporando sistemas agroflorestais.
O caminhos é estimular o consumo de produtos in natura, usados tradicionalmente nas culinárias locais, pontua a professora da Faculdade de Saúde Pública da USP Ana Paula Bortoletto Martins, uma das autoras do artigo e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde.
O sistema atual, diz, mantém a produção agrícola distante dos mercados de consumo, gerando problemas ambientais como a emissão de gases de efeito estufa ligada ao transporte por longas distâncias, seja por navios ou caminhões, e abrindo caminho para um desperdício de quase 1/3 da produção global.
— É preciso promover a diversidade alimentar desenvolvendo culturas e dietas locais — afirma Martins.
Um estudo do Instituto Escolhas mostra que 68% das frutas e 83% das hortaliças vendidas no entreposto agrícola de Belém, que vai sediar a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas em 2025 (COP-30), são originárias do Nordeste e Sudeste. Só 20% de todos os produtos são do próprio estado, o Pará.
— É contraditório. A cidade tem nove assentamentos rurais que poderiam produzir — afirma a pesquisadora Jaqueline Ferreira, uma das coordenadoras do levantamento.
Para Abramovay, é necessário recuperar as plantas negligenciadas e subutilizadas. Não se trata de produzir em larga escala, mas de evitar o desaparecimento de práticas locais de cozinha, que estão sendo perdidas ao redor do mundo.
O consumo de carne vermelha também é outro ponto de preocupação. No Brasil, por exemplo, o consumo per capita é de 150 gramas por dia, acima das 70 gramas diárias recomendáveis para evitar doenças do coração e prevenir alguns tipos de câncer.
Tudo isso ajudaria a combater a obesidade, que triplicou no mundo entre 1975 e 2016 e hoje é mais frequente como causa de morte do que a fome. Nos EUA, 71% dos alimentos à venda são ultraprocessados feitos com os produtos agrícolas dominantes, que recebem aditivos, extratos, soros e xaropes para modificar e melhorar o paladar. Os custos decorrentes de problemas de saúde ligados ao sistema agroalimentar é estimado em US$ 11 trilhões.

Fonte: O Globo

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