
26/09/2023
A época em que as noites quentes eram motivo para ficar na rua faz parte das recordações de um tempo, no duplo sentido da palavra, que virou passado. Hoje se tornaram motivo de preocupação. As temperaturas passaram de amenas a desagradáveis e, por vezes, perigosas. Exemplo são as noites desta onda de calor. Pioneiro nos alertas sobre as noites sem descanso e outras consequências das mudanças climáticas, o meteorologista e climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), está preocupado não apenas com o El Niño, mas com a combinação deste às anomalias do aquecimento global. Marengo alerta sobre a necessidade de planejamento e traça um cenário dos próximos meses.
➙ Há mais de 20 anos seus estudos apontam para o aumento de noites quentes, como as deste ano.
Quando se fala de aquecimento global, é costumeiro se referir às médias porque dão uma ideia geral do que ocorre. Mas quando temos ondas de calor, as máximas e as mínimas se destacam. Quando elevadas, as mínimas, normalmente registradas à noite e no amanhecer (quando a radiação solar não incide diretamente na superfície), são um indicador preciso da intensidade de uma onda de calor. Mas o fato é que as noites não estão mais quentes apenas durante as ondas de calor.
➙ E o quão mais quentes estão?
Os índices de noites quentes, que variam entre países e regiões, dispararam. Estão mais frequentes e com temperaturas mais elevadas o ano todo. Os invernos estão mais quentes.
➙ Por que as noites quentes são um indicador tão importante e também tão preocupante?
Elas são um indicador de problemas, porque se a temperatura não baixa significativamente nem à noite é um sinal de extremo, de anomalia no clima. Porque em dias de muito calor, a chegada da noite costuma trazer alívio para o desconforto e o estresse causados pela temperatura elevada. Mas se o termômetro não baixar significativamente durante a noite, nosso corpo não tem descanso. Na verdade, todos os seres vivos continuam a sofrer, sem alívio. É por isso que noites quentes são terríveis, desgastantes.
➙ Tempestades, deslizamentos e secas são considerados desastres. Calor extremo também é desastre?
Calor extremo é combustível para desastre. Quando temos ondas de calor associadas à seca, o que chamamos de eventos compostos, aumenta muito o risco de incêndios. E não apenas isso, o calor extremo, tanto seco quanto úmido, leva a outro tipo de desastre associado à nossa vulnerabilidade, ele pode causar grandes crises.
➙ Como?
Quando esquenta, aumenta a demanda por água e energia. Porém, se o calor for durante um período seco, há risco de racionamento. Em 2014, quando choveu a metade do que era esperado nas cabeceiras do sistema Cantareira, a temperatura estava 3 °C acima do normal. Tivemos muitos problemas. Este ano a Cantareira está numa situação mais confortável. Mas, mesmo que tenhamos água, há um grande risco de apagões e blecautes. A falta de energia pode paralisar cidades e agravar mais o sofrimento com o calor. As grandes cidades brasileiras são vulneráveis à falta de energia durante picos de calor. Na verdade, não só isso. Elas são muito vulneráveis ao calor, porque têm poucos espaços verdes, distribuição desigual de arborização, população adensada, má circulação de ar, uso de materiais que retém calor, a começar pelo asfalto.
➙ O quão grave pode ser uma crise de energia dessas?
Muito grave. Sem energia, não se pode aliviar o calor com o ar-condicionado, ambientes fechados se tornam intoleráveis. Não temos números precisos no Brasil, mas a onda de calor de 2022 no Hemisfério Norte matou 60 mil pessoas. E a crise é pior do que ficar sem ar-condicionado. Ficamos sem comunicação, os alertas não chegam, as pessoas não podem pedir socorro se passarem mal. Sinais de trânsito não funcionam, hospitais são obrigados a recorrer a geradores, mas tudo isso é limitado. Bombas d’água não funcionam e as geladeiras também não. Precisamos estar preparados para grandes picos de consumo. O calor é certo.
➙ Quão quente será no verão?
Não é possível dizer isso agora com precisão, mas certamente teremos muito calor na primavera e no verão. E nosso calor nessas estações costuma ser úmido, o pior de todos porque o suor não evapora e o corpo não resfria.
➙ E como podemos nos preparar?
Hoje, podemos prever essas ondas. Podemos alertar a população. Mas você pode ter a melhor previsão do mundo e ainda assim muita gente irá sofrer, se não reduzirmos a vulnerabilidade e a exposição ao risco. E a diminuição dessas duas variáveis é urgente. Nem todas as pessoas têm condições de ser proteger. E para isso o poder público precisa reforçar hospitais, alertas, oferecer meios de reduzir a exposição, ter um planejamento para não faltar energia. Também é preciso mapeamento do risco. Assim, como existem áreas de maior risco para chuva também há para calor.
➙ E como as pessoas podem se proteger no nível individual?
A primeira coisa é ter percepção de risco, levar a sério os alertas. Vemos que é necessário mudar muitas coisas, até em atitudes simples. Acredito que a maioria das pessoas sabe que não deve usar roupas escuras em dias quentes nem se expor ao sol. Mas é só olhar as ruas e ver o movimento das praias para ter certeza que muita gente não está preocupada. E deveria, porque o calor extremo é perigoso. E não é só o calor, é todo o risco climático. É só observar o que acontece nas áreas de risco de deslizamento ou inundação. Muita gente volta a se expor, mesmo podendo evitar. O medo não dura muito e as pessoas esquecem. Não são apenas crianças e idosos os vulneráveis. Mas temos boas notícias.
➙ Quais?
Alguns municípios têm se preparado mais, há melhores alertas e mais articulação. Claro, precisamos melhorar. Mas as pessoas realmente precisam levar o clima mais a sério porque o risco está aumentando. Não falamos mais de coisas que podem acontecer. Falamos do que já ocorre. Não se pode mais esquecer o risco e só lembrar no próximo desastre. É assim que se aumenta a vulnerabilidade.
➙ O clima este ano parece ter se enfurecido: recordes de calor, tempestades, incêndios, secas. Quais anomalias são mais preocupantes?
Todos os oceanos estão mais quentes, e não somente o Pacífico, onde o El Niño é formado. O Atlântico está excepcionalmente quente e ele também influencia o clima. Normalmente, em anos de El Niño há menos furacões. Mas este ano o Atlântico está tão quente que a temporada de furacões está muito ativa no Caribe e nos EUA. E El Niño com Atlântico quente é uma péssima combinação.
➙ Foi o que aconteceu com ciclones em agosto nos EUA?
Sim. Em agosto, os EUA e o México sofreram com furacões praticamente simultâneos nas duas costas. A Costa Oeste americana, principalmente a Califórnia, foi castigada pelo ciclone tropical (nome como se chamam os furacões nessa parte do Pacífico) Hillary. Ao mesmo tempo, o furacão Idalia se formava no Golfo do México, vindo depois a atingir a Flórida.
➙ Temos tido muitos ciclones devastadores mundo afora. Os ventos estão mais fortes?
Os ventos de forma geral estão mais intensos, e não falo só de ciclones. Isso não tem a ver com o El Niño, está mais relacionado ao que os modelos indicam para as mudanças climáticas. Os ciclones sempre existiram, mas têm se formado mais próximo ao continente e com isso empurram ventos quentes terra adentro. Causam mais problemas.
➙ O que podemos esperar deste El Niño?
Cada El Niño tem suas particularidades. E este já nasceu combinado a mudanças climáticas. Então, causa apreensão. Tivemos um inverno mais quente e isso é uma marca do El Niño e também das mudanças climáticas. A primavera e o verão seguirão na mesma tendência. Aguardamos outubro para ver se as chuvas começarão dentro da normalidade. Se não começarem, algumas regiões, principalmente no Nordeste e Norte, sofrerão bastante. Para o Sudeste será calor, e o El Niño não necessariamente provoca chuvas mais devastadoras. No Sul, sim, essas chuvas são muito prováveis.
Fonte: O Globo
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