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Agrotóxico banido na União Europeia dizima milhões de abelhas no Brasil

03/10/2023

Não importa a região, os recentes surtos que vitimaram abelhas em diferentes pontos do Brasil têm em comum, além da mortandade em massa, um mesmo produto, o fipronil.
Sintetizado nos anos de 1980, sua patente já expirou e pode ser produzido por qualquer empresa. O uso se tornou indiscriminado, relatam acadêmicos e técnicos agrícolas.
Os agrônomos contam que outros agrotóxicos, como inseticidas a base de nicotina, herbicidas e fungicidas, minam o organismo das abelhas de forma lenta, debilitando as funções físicas até a morte, o que reduz as colmeias ao longo do tempo.
O fipronil é diferente. A substância atua no sistema nervoso central dos insetos, provocando uma superexcitação nos músculos e nervos. É implacável como agente da morte aguda, afirma Ricardo Orsi, professor de veterinária da Unesp (Universidade Estadual Paulista).
"Inseticida sistêmico de ação prolongada e agressiva, hoje ele é usado em diferentes culturas, o que explica a ocorrência de contaminações de abelhas em vários pontos do Brasil", explica ele.
Formigas e cupins são os seus principais alvos, mas é ele aplicado contra o bicudo do algodão, a larva-alfinete no milho, a lagarta-elasmo na soja. Também tem usos domésticos. Está nos mata-moscas e em coleiras de cães e gatos contra pulgas e carrapatos.
Segundo levantamento da Folha, os exames mostraram que foi o fipronil que vitimou 100 milhões de abelhas no Mato Grosso, em junho, 80 milhões na Bahia e, em julho, e também, provocou, em janeiro, perdas em Minas Gerais.
Estudos contínuos no Mato Grosso do Sul identificaram associação crescente entre mortes em massa a substância. Em 2017, o fipronil estava em 30,5% das amostras. Em 2021, em 66,6%. No ano passado, foi detectado em 85,7% nas amostras.
Voltando um pouco no tempo, também foi responsável pela morte de 50 milhões de abelhas em Santa Catarina, em 2017, e pelo surto que dizimou quase 500 milhões no Rio Grande sul, entre outubro de 2018 e março de 2019.
Em todos os casos de mortandade em massa, não muito longe das colmeias havia alguma propriedade rural com cultivo em larga escala.
"Não tem lugar mais arriscado para uma abelha hoje do que do lado de uma fazenda, pois você nunca sabe que agrotóxicos vão usar, e como vão usar", afirma o apicultor José Arnildo Marquezin.
Foi preciso tempo para fazer a correlação entre fipronil e mortes agudas, afirma Aroni Sattle, professor aposentado da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). "Os surtos começaram no início dos anos 2000. As abelhas chegavam, eu examinava, e não encontrava nenhuma doença ou praga que justificasse a mortandade intensa, do dia para noite, então, passei a congelar amostras", diz.
Em 2018, ele enviou 37 delas para avaliação, e o fipronil apareceu como o agrotóxico preponderante. Avaliações de surtos posteriores foram na mesma linha. "Podemos afirmar que 60% a 70% das mortandades são provocadas por ele".
Técnicos afirmam que a pulverização por avião ou do trator, com risco ao trabalhador, é o principal problema, em especial quando feita na floração. A abelha infectada leva o veneno para colmeia e contamina o enxame.
"No caso mais recente aqui no Mato Grosso, não consideraram a temperatura e o vento recomendados para a aplicação e, naquele dia, ainda ocorreu inversão térmica, potencializando o efeito nocivo por um raio de 26 km [quilômetros]", diz a médica veterinária Erika do Nascimento, fiscal do Indea (Instituto de Defesa Agropecuária no estado).

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