
31/10/2023
No final de setembro, cerca de 10% da população de botos do Lago Tefé, no Amazonas, morreu em uma semana. As causas foram a seca severa e a temperatura da água ultrapassando 39ºC. Apesar de ser um evento extremo e pontual, o episódio não é um fato isolado, já que a população global de botos vem de décadas de um declínio aparentemente irreversível. Desde a década de 1980, as populações de botos diminuíram 73% devido a uma série de ameaças, incluindo práticas de pesca insustentáveis, barragens hidrelétricas, poluição proveniente da agricultura, indústria e mineração, e perda de habitat.
Mas, em meio a este cenário desolador, chaga uma boa notícia! Na última terça-feira, 24 de outubro de 2023, 11 países asiáticos e sul-americanos assinaram um acordo histórico em Bogotá para salvar da extinção as seis espécies sobreviventes de golfinhos fluviais no mundo.
Adotada pelos estados asiáticos e sul-americanos, da Colômbia à Índia, a Declaração Global para os botos tem como meta interromper o declínio de todas as espécies e aumentar as populações mais vulneráveis. Ela intensificará os esforços coletivos para salvaguardar as espécies restantes desses indivíduos, por meio do desenvolvimento e financiamento de medidas para erradicar as redes de emalhar, reduzir a poluição, expandir a pesquisa e aumentar as áreas protegidas.
“Esta declaração histórica cria um roteiro para a recuperação das populações de botos em todo o mundo – oferecendo esperança real para a sobrevivência destas espécies icônicas, apesar das enormes ameaças que enfrentam”, disse Stuart Orr, Líder Global de Água Doce do WWF, que está trabalhando com parceiros para apoiar a Declaração.
“Mas essa declaração vai além de salvar os botos: trata-se também de melhorar a saúde dos seus grandes rios, que são a força vital de tantas comunidades e economias, bem como de sustentar ecossistemas críticos, desde florestas tropicais até deltas”, acrescentou Orr.
Os botos vivem em alguns dos rios mais importantes do mundo, incluindo o Amazonas e o Orinoco na América do Sul, e o Ayeyarwady, Ganges, Indo, Mekong, Mahakam e Yangtze na Ásia. Esses rios sustentam centenas de milhões de pessoas, desde povos indígenas e comunidades locais em áreas remotas até residentes de megacidades. Esses rios irrigam grandes extensões de terras agrícolas, abastecem a indústria e os negócios e sustentam uma riqueza de vida selvagem.
Embora o cenário global seja sombrio, os esforços de conservação revelaram-se bem-sucedidos em deter o declínio de algumas espécies de botos, incluindo em algumas das bacias hidrográficas mais densamente povoadas do mundo, como as dos rios Indo e Yangtze.
No Paquistão, a população de botos do rio Indo, ameaçados de extinção, quase duplicou nos últimos 20 anos devido à ação coletiva do governo, das comunidades e de ONGs, incluindo o WWF. No entanto, ainda existem apenas cerca de 2.000 botos do rio Indo e o WWF está trabalhando com as comunidades para reduzir a poluição, libertar os botos presos em redes de pesca e resgatar aqueles que são aprisionados em canais de irrigação.
O número de toninhas sem barbatanas do rio Yangtze, criticamente ameaçadas – a única toninha de água doce do mundo – aumentou 23% nos últimos cinco anos. Este é o primeiro aumento desde o início dos registros e é resultado de rigorosas medidas de proteção e esforços de conservação. Apesar disso, ainda existem apenas 1.249 toninhas sem barbatanas do Yangtze.
Enquanto isso, o inovador projeto de “pinger” eletrônico do WWF evitou com sucesso que os botos do rio Mahakam, na Indonésia, morressem devido ao emaranhamento acidental em redes de emalhar, que tinha sido a maior ameaça direta aos últimos 80 botos do rio. O projeto também resultou num aumento de 40% na produtividade média dos pescadores locais e em nenhum dano dispendioso causado pelos botos às suas redes.
A Iniciativa Sul-Americana dos botos também demonstrou o poder das parcerias, ao reunir organizações para o avanço da ciência, marcar os animais por satélite para descobrir mais sobre a sua movimentação e comportamento, e aumentar a conscientização sobre o papel dos botos – e as ameaças à sua sobrevivência.
“A morte de mais de 150 botos na região amazônica mostra a urgência da adoção de medidas conjuntas para a conservação da Amazônia, um bioma chave para a dinâmica climática em todo o mundo, e dos botos, espécies fundamentais para o equilíbrio ecológico e que permitem avaliar o estado de saúde dos ecossistemas que habitam”, explica Mariana Paschoalini Frias, analista de Conservação do WWF-Brasil e coordenadora do SARDI (Iniciativa Sul-Americana dos Golfinhos Fluviais).
Fonte: CicloVivo
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