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Ártico teve em 2023 o verão mais quente já registrado

14/12/2023

O Ártico teve o verão (que acontece entre julho e agosto no Hemisfério Norte) mais quente já registrado em 2023, com uma temperatura média de 6,4°C. O índice ficou meio grau acima do que o recorde anterior, estabelecido em 2016, de acordo com o Relatório do Ártico, da Agência Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa, na sigla em inglês), divulgado nesta terça-feira (12).
Vindo no final do ano mais quente já registrado, a 18ª edição do relatório anual mostra uma continuação —e, em alguns casos, uma aceleração— das tendências que estão remodelando a região polar à medida que o planeta se aquece devido às mudanças climáticas causadas pelo homem. Essas tendências incluem menos gelo marinho, mais chuva e temperaturas mais quentes na superfície do mar.
"De forma alguma isso é normal", disse Paul Overduin, geocientista do Instituto Alfred Wegener Helmholtz para Pesquisa Polar e Marinha na Alemanha, que contribuiu para o relatório.
"Não é apenas o verão em si que está mudando. A primavera está chegando mais cedo, o outono está chegando mais tarde, então o verão está meio que assumindo o controle, e o Ártico está perdendo seu inverno em algum momento no futuro. E a pergunta é: o que isso fará e como será?"
Já a perda de gelo próxima à superfície no permafrost (solo permanentemente congelado) está desencadeando deslizamentos de terra e afundamentos que estão despejando material em rios, lagos e mares árticos.
"Há lugares onde você olha para a paisagem —o Arquipélago Ártico Canadense, por exemplo, ou também no oeste da Sibéria— onde parece que a superfície da Terra tem uma doença", disse Overduin. "Toda a paisagem está em movimento. Isso só nos últimos cinco anos."
A Noaa acompanha oito "sinais vitais" diferentes para a saúde do Ártico no relatório. Entre as principais descobertas deste ano, estão:
Além do verão mais quente já registrado, o Ártico teve o sexto ano mais quente desde o início da série histórica em 1900, com uma temperatura média do ar na superfície de -6,9°C, 0,7°C mais alta do que a média de 1991-2020.
Desde 1940, as temperaturas médias anuais aumentaram 0,25 °C por década. Temperaturas mais altas em terra podem aquecer grandes rios que deságuam nos mares árticos, elevando essas temperaturas superficiais e derretendo o gelo marinho.
A cobertura de gelo marinho continua diminuindo —o que significa que o escudo reflexivo do planeta também está diminuindo. A extensão do gelo marinho deste ano foi a sexta mais baixa desde o início dos registros por satélite em 1979. As 17 extensões mais baixas de gelo marinho no Ártico ocorreram nos últimos 17 anos.
As temperaturas da superfície do mar no Ártico em agosto estavam de 5°C a 7°C mais quentes do que os valores médios de 1991-2020 nos mares de Barents, Kara, Laptev e Beaufort, enquanto temperaturas anormalmente frias foram observadas na Baía de Baffin, no Mar da Groenlândia e em partes do Mar de Chukotka.
O Ártico está ficando mais verde. A taxa de cobertura verde da tundra foi a terceira mais alta em 24 anos de registros por satélite. À medida que o gelo marinho derrete mais cedo na primavera, a água mais quente exposta cria um clima marítimo mais moderado em áreas costeiras. Isso leva ao crescimento de mais biomassa —incluindo arbustos e árvores pequenas— em terras que eram principalmente cobertas por líquen.
Isso tem efeitos secundários que ainda não são totalmente compreendidos, disse Uma Bhatt, professora de ciências atmosféricas da Universidade do Alasca Fairbanks, que contribuiu para o relatório. Isso pode afetar a cadeia alimentar e as comunidades indígenas que dependem de animais como o caribu, que se alimentam de líquen.
Grande parte do Ártico está tendo um aumento de algas marinhas, com a maior floração de fitoplâncton ocorrendo no Ártico Eurasiano e no Mar de Barents, ligada a temperaturas mais quentes. As florações de algas nocivas são uma ameaça emergente para a saúde humana e dos ecossistemas, afirma o relatório.
A cobertura de neve na América do Norte atingiu um recorde negativo em maio, mas a acumulação geral de neve foi acima da média em todo o continente e na Eurásia durante o inverno de 2022-2023. A neve pode ajudar a mitigar a perda de massa da camada de gelo da Groenlândia.
Apesar dessa acumulação de neve acima da média, a camada de gelo da Groenlândia continuou perdendo massa. O ponto mais alto da camada de gelo registrou temperatura acima do ponto de congelamento em 26 de junho —apenas a quinta vez em 34 anos de registros que isso aconteceu. Se essa camada derreter completamente, os cientistas estimam que o nível do mar global subiria cerca de 7,4 metros.
O Ártico continua ficando mais úmido, com a precipitação pan-ártica sendo a sexta mais alta registrada em 2023. Mas o norte do Canadá teve um verão anormalmente seco, contribuindo para condições de incêndios florestais recorde, já agravadas pela tendência de aquecimento a longo prazo. Até o final de outubro, 4,61 milhões de hectares de floresta haviam queimado na América do Norte de alta latitude, liberando níveis devastadores de gases de efeito estufa.

A reportagem na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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