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Isolados pela seca, produtores de guaraná passam fome na Amazônia

14/12/2023

Não há mercados no Alto Urupadi, região de comunidades ribeirinhas no município amazonense de Maués. Para comer, as centenas de famílias que ali vivem recorrem a quatro fontes: o rio, que lhes fornece o peixe; a floresta, onde caçam e colhem frutos; a roça, onde plantam mandioca e outros tubérculos; e os comércios do centro da cidade, localizados a horas de distância de barco.
Todas essas alternativas foram prejudicadas pela estiagem histórica que atingiu o Amazonas neste ano de 2023, tão severa que matou botos, secou rios, tingiu o céu de fumaça e deixou as 62 cidades do estado em situação de emergência.
O clima extremo levou insegurança alimentar a populações tradicionais como as do Alto Urupadi, que lidam com a escassez de água e comida mesmo vivendo na região com maior biodiversidade do planeta.
"Este rio era muito farto", diz o líder comunitário José Cristo de Oliveira, 48, citando uma infinidade de peixes que costumavam pescar por ali: jaraqui, bodó, pirarucu, curimbatá, tucunaré, acará, tambaqui, caratinga, pacu.
Agora, o rio raso e excessivamente quente espantou muitas espécies de perto da margem, e os pescadores precisam ir longe em busca da refeição de suas famílias.
A falta de profundidade da água também atrapalha a locomoção até a cidade. Só embarcações pequenas navegam, e mesmo assim por rotas alternativas, o que multiplica o tempo de viagem, o gasto com combustível e o preço dos poucos produtos à venda em locais próximos. Um frango chega a custar R$70 e uma lata de sardinha, R$12.
Para piorar, o sol intenso secou as plantações e, como os frutos só nascem na época de chuvas, os animais que poderiam ser caçados ainda não deram as caras por ali.
"Muita coisa que nós plantamos nós não colhemos por causa do verão forte. Fizemos outro roçado, mas morreu a metade. Agora estamos replantando de novo", conta Aleandra Sá Pimentel, 34, moradora da comunidade de São Sebastião.
Os homens do povoado saem para pescar antes do nascer do sol. Eles jogam a rede, cutucam a lama do fundo do rio com o remo buscando algum tucunaré ou acará que possa ter se escondido, mudam de lugar para ver se têm mais sorte. Dependendo da quantidade que conseguem, terão almoço e janta ou só uma das duas refeições.
Mãe de sete filhos, Aleandra prioriza o prato das crianças. "Antes de dormir, tento fazer um mingau ou uma sopinha. Se não comerem nada, eles ficam se queixando, dói o estômago."
Quem tira sua sobrevivência da floresta e dos rios já está acostumado com a alternância dos períodos de seca (de maio a outubro) e cheia (de janeiro a abril). O calendário alimentar dos ribeirinhos segue esse ritmo, com maior abundância de peixes na estiagem e de frutos e caça na época de chuvas.
O período de conexão entre essas estações é o mais crítico, já que a pesca fica mais difícil e os frutos ainda não vingaram nem atraíram animais. Geralmente isso dura um mês, mas essa transição vem se prolongando.
"No ano passado foram 60 dias. Neste ano eles deixaram de pescar dois meses atrás e a seca continua. Isso cria uma lacuna na principal proteína da dieta, que é o pescado", explica Cloves Pereira, professor da Faculdade de Ciências Agrárias da UFAM (Universidade Federal do Amazonas).
Devido à confluência de fenômenos como o El Niño, as altas temperaturas do Atlântico Norte e o aquecimento global, os rios continuaram a secar quando já deveriam estar enchendo.
"Nesse calendário ecológico, onde vão se sucedendo as atividades produtivas, a água é uma referência. E quando isso é modificado, os povos tradicionais são os primeiros a sentir o impacto", afirma Pereira.
Para Pereira, se essas populações não criarem estratégias de adaptação para extremos climáticos, podem até ser obrigadas a migrar, deixando o território onde vivem há gerações e que ajudam a preservar.

Leia a matéria completa na Folha de S. Paulo

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