
19/12/2023
O primeiro passo para resolver um problema é identificá-lo.
E o mundo finalmente reconheceu que a sua dependência dos combustíveis fósseis é um perigo para a sua existência.
Representantes de quase 200 países concordaram, pela primeira vez, em tomar medidas para abandonar a utilização de petróleo, gás e carvão, a fim de conter as mudanças climáticas.
O pacto histórico foi alcançado na cúpula COP28 das Nações Unidas, realizada nas últimas duas semanas em Dubai (Emirados Árabes Unidos).
No entanto, o acordo parece difícil de se concretizar, não só porque não inclui compromissos explícitos sobre a eliminação ou redução da utilização de combustíveis fósseis, como exigiram muitos países, grupos da sociedade civil e cientistas, mas por outros fatores.
No artigo a seguir, Justin Rowlatt, editor de clima da BBC, explica o quão viável será para a humanidade mudar as fontes pelas quais obtém a energia com que ilumina, aquece, movimenta e geralmente impulsiona a economia.
Meteorologistas e especialistas em clima dizem que a humanidade está prestes a atingir um marco importante.
Nos próximos anos, o “pico” de consumo de combustíveis fósseis será ultrapassado - em outras palavras, o mundo atingirá seu nível máximo de utilização de carvão, petróleo e gás.
Porém, a partir daí, a demanda começará a diminuir.
Esta última é uma conquista relevante e algo que deve ser comemorado com entusiasmo, mas também levanta questões.
Com que rapidez ocorrerá a transição para um novo modelo de energia limpa? Esse novo modelo chegará antes de "queimarmos" o planeta?
A montanha de combustíveis fósseis sobre a qual a humanidade construiu a sua civilização é muito mais alta do que a maioria de nós imagina e, portanto, será difícil de descer.
A Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que a utilização global de combustíveis fósseis atingirá o seu pico em 2025, mesmo que os governos não introduzam quaisquer novas políticas climáticas.
O Diretor Executivo da IEA, Fatih Birol, chamou isso de “ponto de viragem histórico”.
Que tipo de desafio estamos enfrentando?
O acadêmico e especialista no papel da energia na sociedade Vaclav Smil explicou que a energia não é simplesmente um insumo para a economia global, como o aço, a inovação ou a tecnologia da informação: ela é a economia.
“Economia é basicamente converter uma forma de energia em outra, só isso, certo? Sem energia não há economia”, afirmou.
Smil se mostra profundamente cético sobre a facilidade com que deixaremos de usar os combustíveis que estão aquecendo o planeta.
“Somos uma sociedade de combustíveis fósseis”, disse, sublinhando que estamos falando de um bilhão de toneladas de aço por ano, 4 bilhões de toneladas de cimento e 4 bilhões de toneladas de combustíveis líquidos.
Esses números astronômicos estão quase além da nossa compreensão.
Isso reflete como a energia é central em absolutamente tudo o que fazemos.
A espécie humana existe há cerca de 300 mil anos e, durante 299 mil desses anos, praticamente todos nós vivemos menos e tínhamos vidas marcadas por trabalho pesado e pobreza.
Porém, tudo começou a mudar por volta do século XIX, quando começamos a explorar as enormes reservas de combustíveis fósseis.
A utilização do carvão, do petróleo e do gás desencadeou a revolução industrial e com ela o crescimento econômico explosivo.
Os cavalos deram lugar à máquina a vapor, depois ao motor de combustão interna e depois ao motor a reação (ou reator).
E, ao mesmo tempo, a população humana cresceu: de alguns milhões de pessoas no final da era glacial, para um bilhão no alvorecer da revolução industrial e agora para mais de 8 bilhões.
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