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Moradores das periferias de Belém sofrem com sensação térmica elevada por ´ilhas´ de calor

21/12/2023

O ponteiro do relógio ainda nem bateu 10h no Conjunto Sevilha, bairro do Parque Verde, na RMB (Região Metropolitana de Belém), e a temperatura já ultrapassa a casa dos 30°C. Antes do meio-dia, a professora Carolina Vilar, 27, tenta ministrar o maior número possível de aulas de yoga online.
Quando as 12h chegam, ela vai tomar banho, volta para a sala, liga dois ventiladores e se deita nos azulejos do chão do seu apartamento, localizado no bloco B do Sevilha. O rito não faz parte dos seus ensinamentos de yoga, mas, sim, de uma estratégia pensada por ela para se livrar de um inimigo invisível, mas muito incômodo para o seu trabalho em casa: o calor excessivo.
"Eu tomo um banho atrás do outro. Na época do verão amazônico, chego a tomar mais de oito banhos por dia", conta ela, referindo-se ao período de junho e setembro, quando a região de Belém vive a época mais quente do ano e de menos chuvas. Normalmente, nesses meses, os termômetros na capital paraense têm média de 33°C, com picos de até 36°C.
Essa média, no entanto, vem aumentando nos últimos anos na cidade e preocupando os moradores, em especial os de bairros periféricos ou mais afastados do centro, como Vilar.
"A sensação térmica aqui é de uma panela de pressão. É mais de 40°C com toda certeza", acredita Vilar.
Segundo dados do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), a temperatura média em Belém aumentou em 0,9°C, com variação de até 1,1°C, de 1991 a 2020.
Os estudos do Inmet já chamam atenção para as sensações térmicas em diferentes pontos da cidade de Belém. "Locais onde o crescimento da cidade foi desordenado, com impermeabilização por cobertura maior de asfalto e concreto, construção de prédios e pouca cobertura vegetal são mais quentes", afirma José Raimundo, coordenador do Inmet-PA.
Atualmente, o Sevilha é um conjunto estabelecido na cidade. Tem portaria bem sinalizada, CEP e cerca de 10 mil habitantes. Mas, há 20 anos, era isolado de Belém, marginalizado pelos bairros mais centrais. Sua implantação foi feita de maneira improvisada, com invasões de espaços de mata para construção de casas, sem planejamento urbano e ambiental, e praticamente sem o apoio do poder público.
Nas redondezas, onde um dia já houve árvores, nasceram outros conjuntos, muitos deles ocupados aos mesmos moldes do Sevilha.
Localizada na avenida Augusto Montenegro, uma das mais importantes da capital, devido os seus 13 km de extensão que passam por oito bairros, a área vem passando por uma revitalização na última década.
Já chamada de "rodovia da morte" no passado, por conta do alto número de acidentes, a Augusto Montenegro é por onde, hoje, a cidade de Belém mais tem se expandido em moradias e pontos comerciais.
Uma das principais marcas desta nova fase é a construção do Sistema Bus Rapid Transit (Sistema de Ônibus Rápido ou BRT). O projeto, de 20 km de extensão, tem o objetivo de interligar Belém e vários distritos próximos, como Marituba e Icoaraci. Contudo, devido a diversas irregularidades desde o seu início, as obras já duram mais de 11 anos.
Com isso, praticamente toda área verde da região se transformou em um canteiro de obras. O coordenador do Inmet confirma que o entorno da avenida está entre os lugares com maior aumento de temperatura da última década em Belém, devido à retirada das árvores na construção do BRT.
"Há 12 anos, às 6h da manhã era bem fresco aqui. Isso acontecia antes de retirarem a arborização. Agora, às 6h, o sol já está invadindo o apartamento e começa a ficar muito quente desde muito cedo. Se tu não tiveres um ventilador, já acordas passando mal de calor", diz Vilar.
Pesquisadores corroboram com a observação sobre o calor excessivo nesses locais. Para a Rede Jandyras, coletivo de mulheres articuladoras ambientais e por justiça climática, a ausência de um plano diretor da cidade possibilitou que o crescimento não fosse planejado para manter a qualidade ambiental.
Nesse processo, grandes áreas permeáveis foram perdidas e deram lugar à construção de vias com asfalto, formando as chamadas ilhas de calor urbanas.
"As regiões da Augusto Montenegro e Ananindeua integram uma região chamada ‘nova Belém’. Desde a década de 90, essa região passou por grandes alterações urbanas impulsionadas pelo mercado imobiliário. Esses fatores, somados às mudanças climáticas, agravaram a ilha de calor urbana, que faz com que determinadas áreas da cidade apresentem maior temperatura que outras", explica Waleska Queiroz, integrante da Rede Jandyras.

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