
09/01/2024
A Amazônia é um território muito mais difícil do ponto de vista logístico de reversão do desmatamento do que o Cerrado. Há regiões em que o governo tem muitas áreas de conservação, então ele tem mais força para agir. Isso não acontece no Cerrado. E ainda outra questão que se impõe que a pequena reserva legal que o proprietário é obrigado a preservar: de 35% em algumas áreas, 20% em outras. Então é um trabalho muito mais penoso, de convencimento da preservação. Foi isso que me explicou o Ministério do Meio Ambiente quando o questionei sobre a divergência entre os resultados de contenção de desmatamento da Amazônia, que caiu pela metade, uma vitória, diante da alta de 43% no Cerrado, em 2023, atingindo o maior índice da série histórica, segundo dados divulgados nesta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
No desmatamento, de forma geral, há uma melhora. Mas o crescimento no Cerrado preocupa, pois trata-se de um bioma fundamental para o equilíbrio das águas. Muitos rios nascem no Cerrado. O equilíbrio entre os biomas está correndo risco. É importante chamar a atenção para essa interdependência. O Brasil tem seis biomas: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa.
O Pampa, quando você olha, parece uma gramínea, mas ele tem uma importância enorme na biodiversidade. Eu já visitei cada um dos biomas brasileiros e conversando com especialistas a importância da Caatinga é fundamental para o equilíbrio geral. Da Mata Atlântica, que já foi nossa rainha, hoje resta pouco mais de 10%. E havia proposta de avançar nesse desmatamento da Mata Atlântica, aprovado no governo passado, que foi revertido.
O fato é que o Brasil precisa proteger todos os seus biomas, não apenas a Amazônia. E estamos num momento decisivo para o ponto chamado de não retorno, do qual não há reversão possível.
Esta semana, entrevistei o embaixador André Corrêa do Lago, negociador-chefe de clima e meio ambiente do Brasil, que destacou que a agricultura brasileira é a uma das primeiras vítimas. O setor, muitas vezes associado ao desmatamento, sofre com os reflexos da destruição como a mudança no regime de chuvas, como vimos nas inundações no Sul e a seca recorde no Norte. Então, agro precisa entender amplamente a noção de risco para o seu próprio negócio de desmatamento e se aliar a essa luta. A preservação dos biomas é importante para o meio ambiente, mas também para a economia.
Fonte: O Globo
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