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Efeitos da mudança climática em anfíbios podem ser mais complexos do que se imaginava, aponta estudo

23/01/2024

Ao longo dos anos, muitos trabalhos vêm reafirmando hipóteses das décadas de 1950 e 1960 que associam variações fisiológicas e climáticas. Por exemplo, uma delas diz que espécies expostas a maior amplitude térmica de um ambiente (a diferença entre as temperaturas mínimas e máximas) apresentariam maior amplitude de tolerância térmica.
Um estudo apoiado pela Fapesp e publicado na revista Integrative Organismal Biology mostra que, pelo menos para os anfíbios da mata atlântica, isso não é necessariamente verdadeiro.
O trabalho, assinado por pesquisadores brasileiros que atuam em instituições do Brasil, Estados Unidos e Emirados Árabes, aponta que algumas populações vivendo em montanhas, onde a amplitude térmica é grande, não possuem necessariamente maior amplitude de tolerância a mudanças de temperatura do que populações em áreas de menor altitude.
"Essa relação entre maior amplitude térmica e maior amplitude de tolerância às mudanças só ocorreu em duas das cinco espécies que analisamos no estudo", explica Rafael Bovo, primeiro autor do trabalho, realizado como parte de seu estágio de pós-doutorado no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) com bolsa da Fapesp.
Uma vez que uma mesma espécie pode estar presente tanto alguns poucos metros acima do nível do mar quanto no alto de montanhas, uma parte importante do trabalho dos pesquisadores foi justamente garantir amostras de populações de uma mesma espécie distribuídas em diferentes altitudes.
Os testes fisiológicos feitos nos anfíbios indicaram que as espécies não necessariamente têm um valor fixo de tolerância térmica. Portanto, diferentes populações podem apresentar maior ou menor tolerância às mudanças no clima. Segundo as análises, maior tolerância ao frio em populações vivendo em maiores altitudes, onde o clima é mais frio, não necessariamente levou ao aumento da amplitude (janela) térmica. Essa janela é determinada por mais de um fator, como exposição prévia (aclimatação) ou adaptação à temperatura.
"Se analisarmos apenas a tolerância térmica, não é seguro afirmar que todos os anfíbios tropicais estão ameaçados pelas mudanças climáticas globais. Mostramos, na verdade, que algumas populações têm maior potencial para suportar alterações, às vezes até comparáveis com espécies de regiões temperadas que, normalmente, possuem maior amplitude de tolerância térmica do que espécies tropicais", conta Bovo, atualmente pesquisador associado à Universidade da Califórnia, em Riverside, nos Estados Unidos.
Da mesma forma, o estudo mostra que certas populações em uma área de baixa altitude, como a da pererequinha-do-brejo (Dendropsophus minutus), estão vivendo próximas do limite de sua tolerância térmica. Por isso, podem não suportar um aumento maior de temperatura.
Parte dos resultados foi obtida durante o doutorado de Bovo no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Rio Claro, também com bolsa da Fapesp.
Uma explicação para que anfíbios vivendo em maiores amplitudes térmicas não tenham adquirido maior janela de tolerância é o fato de muitos passarem a maior parte do dia abrigados, saindo para caçar e se reproduzir apenas à noite. Com isso, se poupam das maiores temperaturas do dia e evitam grandes mudanças nas tolerâncias ao calor.
Por outro lado, anfíbios ativos à noite ficam expostos a temperaturas mais frias, especialmente no alto das montanhas, levando a maiores tolerâncias ao frio. Em consequência, apenas a mudança na tolerância ao frio não foi suficiente para alterar significativamente a janela de tolerância de algumas espécies. Isso evidencia o quão complexas são as possibilidades de ajuste ou adaptação ao frio e ao calor.

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