
30/01/2024
Uma espécie invasora de formiga está causando um desequilíbrio ecológico grave no Quênia: os leões estão sofrendo. Quando pensamos em desequilíbrio causado por espécies não nativas, aquelas que são movidas de um lugar do planeta para outro, normalmente pegando carona em alguma atividade humana, geralmente pensamos em relações lineares, tipo predador e presa. A verdade é que as espécies em um ecossistema conectam-se numa rede em que qualquer vibração pode abalar o todo.
Estudo publicado na revista Science acompanhou durante 20 anos o impacto causado por um inseto invasor, a “formiga cabeçuda”. Não se sabe exatamente sua origem, nem como chegou ao Quênia. Pode ter viajado junto com produtos agrícolas. Ao se instalar na savana, a “cabeçuda” substituiu uma espécie nativa que vivia em mutualismo com um tipo de árvore local, uma acácia africana. As formigas de acácia protegiam as árvores dos elefantes, e em troca tinham néctar e um local para morar. As formigas cabeçudas tomaram o lugar das formigas de acácia, mas não protegem as árvores. Os elefantes, sem as frequentes picadas que os mantinham distantes, começaram a consumir as acácias com a delicadeza de um elefantinho, ou seja, arrancando galhos e troncos.
E o que isso tem a ver com leões? Com os elefantes arrancando árvores para comer, a paisagem mudou. Os leões desta região estavam habituados a se esconder atrás das árvores para pegar suas presas, geralmente zebras, de surpresa. No descampado, as zebras veem o leão chegando e fogem. A vida do leão fica difícil.
Os pesquisadores fizeram um trabalho minucioso para desvendar essa rede de relações ecológicas. Isolaram algumas áreas com cercas para impedir a entrada de elefantes, e perceberam que a cobertura vegetal diminuía drasticamente nos locais invadidos por cabeçudas, quando os elefantes tinham acesso. Depois, monitoraram grupos de leões e mediram a quantidade de zebras caçadas. Perceberam que, nos locais não invadidos pela formiga cabeçuda, os leões conseguiam matar mais zebras. A população de zebras permaneceu estável, provavelmente porque os números são mais controlados por disponibilidade de alimento do que por predadores. Mas o que surpreendeu os pesquisadores foi que o número de leões — pelo menos até agora — também não caiu.
Uma explicação possível é que os grandes felinos mudaram de dieta. Se não tem zebra, comem búfalo. No período de 2003 a 2020, segundo os registros dos cientistas, a proporção de zebras na dieta dos leões desta região caiu de 67% para 42%, e a proporção de búfalos aumentou de zero para 42%. Ou seja, búfalos entraram no cardápio, possivelmente ajudando a manter a população de leões bem alimentada. Mas isso tem um custo: caçar búfalo é difícil e perigoso, requer mais energia e esforço. Isso pode ter consequências como um número menor de filhotes de leão no futuro.
Outras possíveis consequências deste desequilíbrio, que não foram contempladas no estudo, são degradação do solo, já que as acácias são leguminosas fixadoras de nitrogênio, e um impacto na população de espécies de aves que fazem ninhos ali.
Rinocerontes negros, espécie ameaçada que se alimenta das acácias, também podem sofrer.
O estudo nos lembra de que equilíbrios ecológicos são frágeis, e podem sofrer efeitos dominó devastadores. Também, que precisamos olhar para todos os tipos de interações ecológicas. Quem diria que formigas poderiam fazer tanta diferença na vida de elefantes, leões, zebras, búfalos?
Também vale lembrar que as formigas e os elefantes não têm cientistas para alertá-los sobre o dano que estão, inconscientemente, causando ao ambiente em que vivem. Em todo o planeta, de fato, só existe uma espécie que não tem essa desculpa: a nossa.
Fonte: O Globo
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