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Corrida pela energia limpa no Brasil ´está longe de ser inofensiva´, dizem movimentos sociais

01/02/2024

Vinte e nove organizações sociais ou de proteção ao meio ambiente divulgaram nesta quarta-feira (31) uma proposta de novas regras para autorizações de construção de parques de geração de energia eólica e solar no país.
O objetivo é debater mecanismos de proteção contra os riscos e os impactos que esses projetos impõem aos territórios e aos seus habitantes. Em dezembro, reportagem da Folha mostrou que a corrida pela energia limpa tem intensificado conflitos socioambientais, principalmente no Nordeste.
"Embora carreguem o rótulo de energia limpa, a forma como as grandes usinas eólicas e solares e suas linhas de transmissão vêm sendo instaladas no Nordeste brasileiro está longe de ser inofensiva", diz o documento, intitulado "Salvaguardas Ambientais para Energia Renovável".
As preocupações vão desde o impacto sobre comunidades tradicionais e pequenos agricultores a questões ambientais, como ameaça a espécies nativas e à flora —em 2022, a plataforma MapBiomas detectou pela primeira vez desmatamento por usinas eólicas e solares no Nordeste.
"O Brasil tem condições de dar uma imensa contribuição para a descarbonização mundial", diz o texto. "Mas isso não pode ser feito às custas de povos e de populações historicamente exploradas, marginalizadas e vulnerabilizadas."
Uma das propostas é a definição de zonas de exclusão para os empreendimentos, definidos a partir do diálogo com os habitantes e das premissas ambientais de cada território, incluindo os princípios da precaução e prevenção.
"O uso da terra para produção de alimentos e água, conservação ambiental e manutenção dos territórios, culturas e modos de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais não podem ser impossibilitados em detrimento da produção comercial e em larga escala da energia."
Nesse sentido, o grupo propõe que nesses territórios, a geração seja pautada em modelos solares descentralizados, comunitários e autogestionados, com menor impacto sobre o modo de vida e produção do que os grandes parques geradores, que ocupam vastas áreas.
O documento propõe também regras para os contratos entre empreendedores e proprietários de terra, considerados pelas entidades abusivos, pelos longos prazos, restrições para uso da terra e pelos valores pagos aos proprietários.
Nesse sentido, propõe apoio jurídico às comunidades, maior remuneração e mitigação de danos também a vizinhos, que muitas vezes sofrem os impactos mas não recebem compensação financeira.
Dorinha Nonato, de uma comunidade quilombola na divisa entre Pernambuco e Piauí, contou no lançamento do documento que as negociações que privilegiam apenas os proprietários é fonte de conflitos em sua região.
"Conflitos entre famílias, conflitos entre sócios de associação, ameaças", afirmou. "Sofremos ameaças em função da pressão que a empresa [que instala um projeto na região] colocava nos proprietários e que os proprietários colocavam na gente."
"O modelo de exploração desenvolvido no país é implementado mediante o desapossamento dessas comunidades", afirmou, também no evento desta quinta, o defensor público federal da Paraíba Edson Andrade. "Precisamos de um modelo mais democrático, que divida a riqueza com essas comunidades."
As entidades questionam ainda o processo de licenciamento dos projetos, na maior parte dos casos feito por órgãos ambientais estaduais. Segundo eles, o modelo é ineficaz, gera confusão regulatória e falta de transparência processual e tem pouca participação social.
"O licenciamento ambiental deveria ser um importante instrumento para mitigar e compensar impactos e danos. Mas, na prática, o processo existente tem sido insuficiente para responder ao avanço das centrais
de geração de energia eólica e solar no Nordeste", afirma o texto.
Em 2022, segundo o MapBiomas, energias renováveis foram responsáveis pelo desmatamento de 4.291 hectares. "O dado é especialmente preocupante pela expansão se dar em dois biomas altamente ameaçados e pouco protegidos, o cerrado e a caatinga", dizem as entidades.
Elas pedem ainda que a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) considere aspectos socioambientais na análise da outorga dos empreendimentos, que hoje considera principalmente restrições do setor elétrico brasileiros.

Termine de ler esta reportagem clicando na Folha de S. Paulo

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