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Moradores do Mato Grosso do Sul têm contaminação por agroquímicos e metais

20/02/2024

Em abril de 2023, uma equipe multidisciplinar, estabelecida pela INCAB – Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira, projeto do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, realizou a coleta de amostras biológicas de seres humanos para detectar a presença potencial de agroquímicos e metais. Os pesquisadores detectaram cinco agroquímicos durante a pesquisa, sendo dois Organofosforados (Glifosato e Malathion) e três Organoclorados (pp’DDD, Dieldrin e Beta-BHC).
Para realizar a pesquisa, a INCAB-IPÊ obteve a licença nº5.576.386, do Comitê de Ética da Plataforma Brasil. Ao todo, 94 moradores dos municípios de Nova Alvorada do Sul e Nova Andradina, no Mato Grosso do Sul, fizeram parte do estudo e tiveram amostras coletadas para exame. Desses, 36 pessoas testaram positivo para algum agrotóxico, sendo que em alguns casos há mais de um químico presente.
Essa situação é conhecida como ‘coquetel de agroquímicos’. Seus efeitos ainda são pouco conhecidos, mas a interação entre químicos pode ser ainda mais perigosa. Do total de participantes, 78 foram testados para o glifosato em amostra de urina. Este é o herbicida mais utilizado no Brasil e possui potencial cancerígeno, segundo estudos. O glifosato se mostrou presente em 25 pessoas.
“O organismo humano é capaz de metabolizar e eliminar diversas substâncias, entretanto as moléculas de vários agrotóxicos podem se depositar no corpo e causar danos aos órgãos e tecidos, como fígado, rins, pele e sistema nervoso. A depender da dose no corpo, pode levar inclusive à morte”, explica o Médico e Doutor em Doenças Infecciosas, Maurício Pompílio.
A anta brasileira já apontava para esse cenário de contaminação durante o estudo realizado pela INCAB-IPÊ, entre 2015 e 2018. O estudo gerou um relatório técnico e um artigo científico que foi publicado na revista científica internacional Wildlife Research, em 2021. Durante os anos da pesquisa, amostras biológicas de antas foram coletadas, principalmente de carcaças frescas de animais atropelados ao longo de 34 rodovias do Mato Grosso do Sul, particularmente a BR-262, BR-267 e MS-040. Nos animais amostrados foi possível detectar 13 compostos químicos diferentes, incluindo nove pesticidas e quatro metais.
“Passamos a utilizar as antas como sentinelas na detecção de compostos químicos em áreas dedicadas à agricultura e pecuária – particularmente as grandes monoculturas de cana-de-açúcar, soja, milho e algodão. Começamos a pensar que, sendo as antas sentinelas e nos mostrando quais são os compostos presentes no ambiente, as comunidades humanas nessas regiões estariam também expostas a esses químicos. A gente espera que, com esse conjunto mais amplo de resultados, seja possível iniciar uma conversa com os órgãos governamentais, os laboratórios, as empresas do agronegócio que estão envolvidas com essa cadeia de utilização dos agrotóxicos em nosso país”, explica a pesquisadora e coordenadora da INCAB-IPÊ, Patrícia Medici.
Como produto dessa pesquisa, um relatório técnico foi gerado. Para realizar o estudo com humanos foi necessária uma equipe multidisciplinar, que envolveu o médico Maurício Pompílio e a bióloga e enfermeira Valdirene Pires Macena. Os laudos contendo os resultados dos exames foram entregues para cada um dos moradores que participaram da amostragem, assim como recomendações sobre como proceder nos casos positivos para agroquímicos e metais.
Durante o procedimento, foram coletadas amostras de sangue para exames de hemograma, bioquímico e dosagem de agroquímicos e metais, assim como amostras de urina para a dosagem de glifosato. A urina é a melhor forma de identificar um químico pouco metabolizado, como o glifosato. Os participantes do estudo passaram por uma consulta e foram entrevistados para identificação de potenciais contatos prévios ou atuais com agroquímicos.
Os moradores foram testados para 10 Organofosforados – entre eles estão Diazinon, Dimethoate e Malathion, e para 15 Organoclorados, como Aldrin, Dieldrin e Endrin. Além disso, foram testados para nove metais, como o alumínio, chumbo, arsênio, cobre e mercúrio.
O Glifosato, um Organofosforado, foi encontrado em 25 pessoas, sendo 16 homens e nove mulheres. Os valores das amostras estão acima do esperado, ou seja, acima de 0,6 µg/l. O Brasil permite altos limites de utilização do herbicida, se comparado com outros países. Por exemplo, o limite máximo de Glifosato na água, na União Europeia, é de 0,1 µg/l, enquanto no Brasil o limite é de 500 µg/l, ou seja, 5.000 vezes maior.
Essa diferença de limites também se manifesta nas amostras humanas. Na Dinamarca, por exemplo, o limite máximo de glifosato encontrado em pesquisas realizadas em humanos é de 3,31 µg/l. Na França o valor máximo foi de 9,5 µg/l. Na amostragem feita pela INCAB- IPÊ, o valor máximo encontrado foi de 15,12 µg/l, sendo que sete pessoas, entre os 25 positivos para glifosato, possuem concentrações maiores que 10 µg/l.
Em 15 pessoas, das 25 positivas para glifosato, foram detectadas alterações nos exames de rotina. Além disso, em quatro indivíduos foram identificados outros agroquímicos no sangue. O Dr. Maurício Pompílio explica que o efeito desse coquetel de agroquímicos depende do tipo de produto, da dose e do sistema ou órgão afetado. “Mas essa combinação tende a aumentar a intensidade de sintomas, como prurido e lesões de pele, disfunção do fígado e rins, mal-estar, náuseas e vômitos, diarreia, tremores, alteração do humor, perda da memória, insônia, entre outros”, destaca.
Os participantes foram testados para nove metais. Entre os 94 participantes, quatro foram positivos para cobre e 18 para mercúrio. As concentrações de cobre estavam acima do limite máximo esperado. O limite de cobre no sangue humano pode variar entre 60 e 140 ug/dL, segundo referências do Centro de Assistência Toxicológica – CIATOX. Um dos positivos para esse metal atingiu 223 ug/dL. Os limites de mercúrio não foram altos, de acordo com a referência do CIATOX, mas o metal estava presente. É importante dizer que não deveria se encontrar mercúrio em humanos.
Ao contrário dos agroquímicos, os metais são encontrados naturalmente no ambiente. Entretanto, dependendo do tempo de exposição, quantidade e tipo de metal, pode-se gerar efeitos tóxicos. O cobre e mercúrio são classificados, pela International Agency for Reserach on Cancer (IACR), como Grupo 3 – carcinogenia não classificável, pois não há evidências o suficiente em humanos e animais. Apesar da falta de evidências sobre o potencial cancerígeno, o mercúrio pode se propagar para a corrente sanguínea e atingir o cérebro, o que pode resultar em danos ao Sistema Nervoso Central. Entre as pessoas positivas para concentrações altas de cobre, três são mulheres e uma é homem. Das 18 pessoas positivas para mercúrio, 10 são homens e oito são mulheres.
O Dr. Maurício Pompílio explica que, com os resultados obtidos na pesquisa com humanos, há medidas individuais e coletivas que devem ser tomadas. “No aspecto individual, identificar se seus exames estão normais ou alterados e, em caso de alterações, procurar ajuda para avaliar melhor seu estado de saúde. No aspecto coletivo, sensibilizar todos os trabalhadores rurais para a necessidade do uso dos equipamentos de proteção individual durante o manejo do solo e defensivos agrícolas”.
Maurício também explica que a contaminação pode ser proveniente de áreas com aplicação dos agroquímicos em larga escala. “Comunidades rurais, gestores locais e conselhos precisam somar esforços para que os responsáveis pela produção agrícola em larga escala empreguem estratégias para reduzir imediatamente esta contaminação e apliquem alternativas deste manejo do solo e produção agrícola de forma mais consciente e segura”, destaca.
Dados do IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, demonstram que o Centro-Oeste é a região que mais comercializa agrotóxicos no país. Foram 237.144,49 toneladas de agrotóxicos vendidos na região, em 2020. Além disso, Mato Grosso do Sul é o sexto estado que mais vende as substâncias no país. Em 2020, foram comercializadas 18.807,73 toneladas de glifosato só no Mato Grosso do Sul. 2,4-D é o segundo produto mais vendido, com 4.258,58 toneladas no estado. Ao observar os números nacionais, o Brasil comercializou cerca de 246.017 toneladas de glifosato, em 2020, e 57.597 toneladas de 2,4-D.

A reportagem na íntegra pode ser lida no CicloVivo

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