
07/03/2024
O Regulamento para Produtos Livres de Desmatamento da União Europeia (EUDR) está sendo executado de maneira prejudicial para a maioria dos países produtores, diz ao Café na Prensa David M. Neumann, CEO do Neumann Kaffee Gruppe, maior vendedor de café verde do mundo –cerca de 10% de todo o café negociado no planeta passa pelas mãos da empresa.
Apesar de reconhecer a ideia promissora e o conceito digno, Neumann diz em entrevista exclusiva, por e-mail, que a norma pode inclusive fazer com que empresas abandonem áreas consideradas com alto risco de desmatamento, abrindo espaço para que regiões onde atualmente se pratica agricultura sustentável sejam desmatadas para dar lugar a pastagens.
O EUDR proíbe a importação de produtos provenientes de áreas com desmatamento identificado até dezembro de 2020. A lei passa a ser aplicada em 30 de dezembro de 2024 e incide não apenas sobre café, mas também sobre soja, madeira, cacau, óleo de palma, carne bovina e borracha.
A lei classifica determinadas regiões pelo risco de desmatamento. Quanto maior for o risco de desmatamento naquela região, maiores são as exigências para comprovar que o produto não veio de área desmatada. Logo, diante do alto custo para providenciar tais evidências, empresários podem deixar de comprar café dessas áreas para adquiri-lo de regiões com menos riscos, segundo Neumann.
"Por exemplo, existem projetos em andamento na Amazônia brasileira para promover o cultivo de café sombreado como meio de fornecer renda às comunidades locais, ao mesmo tempo em que garantem que os corredores de biodiversidade sejam mantidos intactos em comparação com outras culturas, como o gado", diz Neumann.
"Isso pode ser uma opção melhor do ponto de vista do desmatamento, biodiversidade e clima. No entanto, em uma avaliação de risco, qualquer café proveniente dessa área sempre terá alto risco de desmatamento e exigirá sistemas de rastreabilidade e monitoramento custosos para comprovar a conformidade. É muito mais barato e menos arriscado sob o EUDR obter café de grandes fazendas longe das florestas do que se envolver", afirma o empresário.
Assim, Neumann diz que, com o EUDR, vê "o risco de que o regulamento forneça incentivos para que empresas europeias saiam de áreas de risco, em vez de se envolver em áreas de risco e evitar desmatamentos futuros".
le critica ainda o fato de a lei indiretamente penalizar o pequeno produtor, que é justamente a maioria do setor. Como se sabe, o cultivo de café é sobretudo praticado por pequenos proprietários de terra, diferentemente de outras culturas, como a soja.
"O custo para obter um ponto de GPS ou um polígono é semelhante se considerarmos uma fazenda de 0,5 he ou uma grande propriedade. Isso também pode distorcer os custos em relação ao poder de ganho em prejuízo do pequeno produtor, que produz a grande maioria do café do mundo", diz.
Assim, segundo Neumann, a norma prejudicará países com estruturas mais precárias. É o caso, por exemplo, de vários produtores na África e na América Central. "Somos críticos ao fato de que uma ideia promissora e um conceito digno estão sendo executados de maneira prejudicial para a maioria menos sofisticada dos países e produtores de café, enquanto neutro a positivo para apenas alguns países produtores, incluindo o Brasil".
Ele se refere ao Brasil como um dos países possivelmente beneficiados pela norma porque, de modo geral, o país tem mais estrutura para fornecer os dados solicitados pelo regulamento europeu.
"Os exportadores de café brasileiros, por meio do Cecafé [Conselho dos Exportadores de Café do Brasil], levaram o regulamento a sério desde antes de sua implementação e desenvolveram soluções em todo o país que suportam os requisitos enfrentados pelas empresas com sede na UE", diz.
Assim, afirma, "o Brasil está além da curva". A transição será muito mais difícil para outros países, na visão de Neumann.
Segundo o empresário, o regulamento também pode trazer efeitos colaterais negativos para os consumidores europeus. "É provável que a Europa veja preços mais altos para o café e cafés provenientes de menos origens, reduzindo a diversidade na xícara e criando futuros riscos de fornecimento, especialmente diante das mudanças climáticas", diz.
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