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Comunidades tradicionais atuam na defesa da maior floresta de manguezais do planeta

02/04/2024

Frequentemente nas notícias em todo o mundo pela sua imponente floresta, a amazônia é um bioma diverso, com vários ecossistemas distintos. Dentre eles, os mangues são pouco conhecidos, mas não menos importantes para o meio ambiente: é no norte do Brasil que se encontra a maior faixa contínua de manguezais do mundo.
Além de mais extensos, os manguezais amazônicos também são os mais bem preservados. Menos de 1% de toda a área de mangues na região, que é de cerca de 7.800 km2, sofreu devastação nos últimos anos. Os manguezais se estendem do Amapá até o Maranhão, passando pelo litoral paraense. E boa parte dessa conservação se deve à presença de comunidades tradicionais.
Manguezais são, por definição, áreas estuarinas onde há o encontro da água doce dos rios com o mar. Em geral, a água é salobra, e a vegetação, composta predominantemente por espécies de mangue branco ou vermelho, capazes de expelir o excesso de sal por meio de estruturas nas suas raízes.
Neles também vivem diversas espécies de animais, tanto invertebrados quanto vertebrados, como aves, peixes e crustáceos, como o caranguejo-uçá.
Os manguezais fornecem alimentação e renda para quilombolas, ribeirinhos, pescadores e indígenas. Além disso, os manguezais são um importante local de captação de dióxido de carbono (CO2), o que ajuda a combater o aquecimento global e diminuir a crise climática.
"O mangue é o nosso alimento. Aqui é área de mato, e a gente se alimenta porque o mangue está muito próximo. Tiramos nossa comida, nossos remédios [plantas medicinais]. No mangal, tiramos o caranguejo, o sururu [um tipo de mexilhão], o turu [molusco], e ainda tem o camarão, o peixe", diz Roseti do Socorro Melo de Araújo, presidente da Arquia (Associação Remanescente Quilombola do América), em Bragança (PA).
Segundo ela, na comunidade todos sabem trabalhar com o caranguejo, com peixe e com os mariscos, inclusive as crianças.
"O mangue é muito importante para a gente. Hoje esse caranguejo está cada vez mais longe, mais difícil de pegar. Estão aterrando o mangal, jogando lixo. Grandes empresas vêm tirar pau do mangue para fazer andaime", diz.
Não são raros os relatos de escassez de peixes na região. Isso tem ocorrido em razão da pesca predatória, praticada sem respeitar o ciclo reprodutivo dos animais, e da sobrepesca, com os animais sendo retirados do mar, vendidos em grande quantidade, muitas vezes para suprir mercados externos.
Os moradores do quilombo têm de ir cada vez mais longe —em direção ao oceano— para conseguir o pescado, conta Roseti.
"As grandes embarcações pegam até o peixe pequenininho em grande quantidade, para fazer isca. [Eles] não se preocupam como vai ser o amanhã", afirma ela, que é também agente comunitária de saúde no quilombo.
As comunidades tradicionais estão na linha de frente na proteção dos manguezais, já que dependem deles para seu sustento —uma cambada, nome dado ao conjunto de 14 caranguejos adultos, é vendida por R$ 10, segundo Roseti.
Os moradores da região têm sido ameaçados e perseguidos por conta da sua atuação, relata ela. A líder quilombola diz que a defesa da floresta de mangue vai desde cobrar os órgãos públicos por direitos básicos, como o reconhecimento da comunidade, até bater de frente com empresários.
"Queriam fazer criadouro de camarão no mangal. A gente se mobilizou porque sabia que isso iria nos prejudicar. Não íamos conseguir pegar o camarão, fazer o arrasto."

Conclua a leitura desta matéria clicando na Folha de S. Paulo

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