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´Finanças é a discussão mais importante do ano´, diz embaixador Corrêa do Lago

09/04/2024

A crise do clima vem subindo degraus nas discussões do G20, o grupo das maiores economias do mundo, que responde por 80% do PIB mundial e 80% das emissões. O G20 já vem dando prioridade ao desafio global há alguns anos e o Brasil decidiu dar ainda mais relevância ao tema durante a sua presidência. Neste tópico, um dos pontos mais cruciais é como mobilizar fluxos financeiros que alcancem os trilhões de dólares para apoiar a transição das economias.
Dinheiro é também o ponto-chave da próxima rodada da conferência climática das Nações Unidas, a COP29, em Baku, no Azerbaijão. Ali, contudo, participam governos de todos os países do mundo, ricos, emergentes e pobres. Os embates giram em torno a recursos públicos que deveriam vir dos países industrializados aos em desenvolvimento.
O embaixador André Aranha Corrêa do Lago, negociador-chefe do Brasil nas conferências de clima da ONU e copresidente de quatro frentes importantes no G20, resume: “Finanças é a discussão mais importante do ano.”
Há grandes diferenças, contudo. Em Baku, o nó dos conflitos extrapola os famosos US$ 100 bilhões (R$ 505 bilhões) ao ano, prometidos pelos países ricos em 2009, para ajudar o mundo em desenvolvimento a transitar suas economias para o baixo carbono. Isso teria que acontecer todos os anos entre 2020 e 2025 e até agora não se concretizou. Na COP29 trata-se de discutir qual a soma para 2026 a 2030 e de onde virão os recursos. Mas não só.
— Achar que se vai resolver o problema da crise do clima com dinheiro especificamente só para clima, não existe. O que vai resolver é que o clima seja integrado nos investimentos normais. Na língua inglesa tem uma expressão muito boa, mainstream, é isso que temos que fazer — explica o embaixador.
Alguns estudos estimam em US$ 4 trilhões (R$ 20,2 trilhões) a US$ 6 trilhões (R$ 30,3 trilhões) ao ano para fazer com que as economias transitem para o mais próximo possível do zero-carbono. A Agência Internacional de Energia diz que é preciso aumentar investimentos em energia limpa do US$ 1,8 trilhão este ano para US$ 4,5 trilhões anualmente até o início da década de 2030 — isso só para a área energética.
— No G20 estamos insistindo nos famosos trilhões, que não viriam de dinheiro público dos países ricos, mas de bancos de investimento, investimentos privados e mecanismos inovadores — explica Corrêa do Lago, ex-embaixador do Brasil no Japão e na Índia. — Há muitas propostas, de taxação de petróleo e outras, que iremos examinar. O objetivo é assegurar que a partir de agora, se todos os investimentos levarem em conta o elemento clima, teremos US$ 9 trilhões (R$ 45,5 trilhões) ou US$ 10 trilhões (R$ 50,5 trilhões) para investir.
As prioridades definidas pelo presidente Lula no G20 — o combate à fome e às desigualdades, a transição energética e a reforma da governança global — se desdobram em diversas frentes. Corrêa do Lago copreside dois grupos já tradicionais no G20. Um deles, com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática, é o de sustentabilidade climática e ambiental. Irá se debruçar sobre adaptação aos eventos climáticos extremos, pagamento por serviços ecossistêmicos, oceanos e resíduos e economia circular.
O outro grupo é sobre transições energéticas, em conjunto com o Ministério de Minas e Energia.
— Transições, no plural, porque os países do G20 concordaram que cada um tem circunstâncias inteiramente diferentes. Têm países do G20 que ainda estão com mais de 80% de carvão; outros, como o Brasil, têm matriz energética majoritariamente renovável — explica.
O Brasil criou, no âmbito do G20, uma força-tarefa inédita — da Mobilização Global contra a Mudança do Clima. Junta as duas dimensões do G20, a política, dos sherpas (negociadores), e a de finanças. Tem duas prioridades: eliminar o gargalo para o financiamento privado nos bancos de desenvolvimento, por exemplo, e apoiar os planos de transição ecológica dos países, explica Corrêa do Lago. Ele copreside a força-tarefa, pelo Itamaraty, com os ministérios da Fazenda, Meio Ambiente e o Banco Central.
Outra das novidades propostas pelo Brasil é igualmente insólita — a iniciativa de bioeconomia.
— Nunca se falou de bioeconomia no G20. Para nós é uma prioridade a ser debatida — diz o diplomata.
Trata-se de um conceito sem definição, ainda em disputa, dentro e fora do Brasil — “um conceito em construção”, como ele prefere dizer.
— O Brasil quer que o mundo, ao debater a bioeconomia, não a reduza a um número limitado de interpretações — diz.
Aqui a copresidência é entre os ministérios das Relações Exteriores, Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia e Fazenda.
O embaixador ressalta que existe uma urgência climática e que a ação conjunta dos países é “algo que não pode ser adiado (...) diante de coisas que estão por acontecer”.
— Temos poucos anos para assegurar que a temperatura suba menos que 1,5°C. Se não agirmos agora, não vai acontecer. Incorporamos no G20 a ideia do limite de 1,5°C como referência para todos — diz o diplomata.

Fonte: O Globo

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