
09/04/2024
É um mamífero roedor, mas nem tão pequeno quanto o rato e nem tão grande quanto a capivara, embora, à primeira vista, possa ser confundido com a segunda. Trata-se da paca. E ela está mais perto do que se imagina. Um estudo da Universidade Veiga de Almeida (UVA), divulgado em fevereiro, registrou pela primeira vez, em fotos, indivíduos da espécie Cuniculus paca circulando no Parque Natural Municipal Chico Mendes, no Recreio. Antes, a presença desses animais no local era apenas suposição, explica Cecília Bueno, coautora da pesquisa e professora do mestrado em Ciências do Meio Ambiente da instituição.
— A paca não foi incluída nem no plano de manejo do parque e nem havia registro publicado dela no local — atesta. — Eu já trabalho com monitoramento de fauna no Rio há quase 30 anos e tinha curiosidade de saber como estão as espécies nos pequenos parques municipais, especificamente o Chico Mendes, que tem conexão com o Parque Municipal Natural de Marapendi, através do Canal das Taxas. Então, fizemos um armadilhamento fotográfico, com câmeras presas em árvores e estacas e sensor de movimento, capaz de fazer fotos e pequenos vídeos. É uma forma de monitorar 24 horas, com o mínimo de invasão no espaço. Não fizemos o reconhecimento de cada indivíduo fotografado, o que exigiria mais tempo e investimento, mas, com certeza, registramos mais de um.
A pesquisa de campo foi feita entre novembro de 2020 e julho de 2021, e a situação se mantém, de acordo com a especialista, frequentadora do Parque Chico Mendes. Ela comemora a descoberta, explicando que as pacas são uma espécie ameaçada no Rio, pela perda de habitat, devido ao avanço da cidade sobre áreas naturais, e por serem alvo de caça para consumo humano.
— O avistamento delas na cidade já não acontecia há muito tempo. No Chico Mendes, é fácil vermos, por exemplo, capivaras, por serem maiores e se sentirem mais confiantes perto dos humanos — observa. — A paca é uma espécie importante porque, ao se alimentar de frutos, acaba ajudando, como a cotia, na dispersão de sementes, o que é fundamental para a manutenção da floresta. É um animal noturno, embora menos ativo em noite de luar, e fica entocado durante o dia em buracos feitos por outras espécies. E é bem menor que a capivara, podendo chegar a 70 centímetros de comprimento e 13 quilos; e, à diferença desta, tem manchas esbranquiçadas nas laterais do pelo.
O estudo confirma a importância de corredores ecológicos para o desenvolvimento da fauna nativa, como o Canal das Taxas, avalia Cecília Bueno.
— Corredor ecológico é um espaço verde que une duas áreas naturais, favorecendo a circulação da fauna e ampliando suas possibilidades de busca de alimentos e parceiros. Na região, observamos que a conexão entre o Chico Mendes e o Marapendi funciona, porque as pacas vão de um lado para o outro por ela, o que nos leva a crer que outras espécies façam o mesmo. Isso é muito positivo para a fauna local, porque as áreas de ambos os parques são muito pequenas — pontua Cecília. — Esses corredores precisam estar dentro do plano de gestão das autoridades e ser protegidos, evitando que as pessoas utilizem-no e acabem causando mais impactos nas unidades de conservação.
O levantamento flagrou também mamíferos como tatus-galinha, capivaras, gambás e mãos-peladas circulando no Chico Mendes.
— O guaxinim, por exemplo, aqui é conhecido como mão-pelada, por conta da mão dele mesmo, que é bem bonitinha. É um animal bem associado a manguezal e bem voraz, come de caranguejo a pequenos invertebrados. Ele é solitário, tem atividade mais noturna, e você consegue encontrá-lo no fim da tarde, quando está começando a escurecer — explica a pesquisadora. — Todo o conhecimento que estamos produzindo vai ajudar a entender melhor nossa fauna, o que possibilita traçar formas mais eficazes de gestão dessa fauna no nosso município, investindo, sobretudo, em ampliação das áreas protegidas. Biodiversidade se conserva mantendo áreas naturais. Não há outra saída. Pretendo dar continuidade a esse estudo em outros parques naturais da cidade.
Espécies exóticas no habitat, gatos domésticos, saguis-de-tufo-branco, saguis-de-tufo-preto e ratos também foram registradas pela pesquisa nos dois parques.
— Os sagusi-do-tufo-branco e preto fazem parte da Mata Atlântica do Nordeste e do Cerrado, no Centro-Oeste, respectivamente. Foram trazidos para cá e começaram a proliferar na área urbana e aproveitar as áreas de conservação para viver, porque são muito adaptáveis. Mas impactam a biodiversidade nativa, porque predam ovos e filhotes de aves, por exemplo. A retirada dessas espécies das unidades de conservação é fundamental para melhorar a qualidade de vida da biodiversidade — destaca Cecília. — Infelizmente, durante os trabalhos, identificamos ainda muitas armadilhas de aves, para captura e venda, o que ocorre com frequência no Recreio.
A Secretaria municipal de Meio Ambiente e Clima (Smac) diz que a recuperação populacional e o aumento das aparições são fruto da preservação das duas unidades de conservação e do corredor ecológico que as conecta. Por isso, afirma, “a inclusão do Canal das Taxas nos limites do Parque Natural Municipal Chico Mendes é primordial”. O órgão ainda celebra o “avanço” constatado pelo estudo, destacando que a espécie é a mais caçada e cobiçada em toda a América do Sul, com o agravante de ter uma baixa taxa reprodutiva, com um filhote por ano.
Quanto ao manejo das espécies exóticas, o órgão informa que a presença delas é uma "infeliz" realidade em diversas unidades de conservação da natureza, mas que o Rio dispõe de ações de combate. No caso de saguis, a secretaria diz que já executou uma pesquisa com controle químico na reprodução, em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e que novas propostas para o controle estão sendo estudadas.
Com relação às armadilhas para captura de aves, a Smac garante que a fiscalização é constante, feita pelo gestor e pela equipe da Guarda Municipal lotada na unidade de conservação, podendo ser auxiliada pela Patrulha Ambiental e pelo Comando de Policiamento Ambiental. E assegura que o monitoramento dessas áreas têm conseguido coibir e reduzir as ações predatórias.
Fonte: O Globo
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