
25/04/2024
Num dia de sol num dos cantos mais remotos do planeta, a realeza dos pinguins vai e vem do mar sem cessar. Nada perturba os pinguins-reis. Nem a fúria do vento nem um leão-marinho, cujo vulto se vê nas ondas da praia de Volunteer Point, santuário de vida selvagem na ilha Falkland East, no Arquipélago das Falklands, territórios ultramarinos britânicos que o Brasil e o resto da América Latina chamam de Malvinas. Mas o perigo está no ar. O pinguim-rei parece saber que a maior ameaça não está no leão-marinho nem em carnívoro algum. É invisível. São mudanças climáticas que fazem o calor avançar sobre as zonas frias e deixam seu mundo cada vez menor. O aquecimento global é o maior predador que os pinguins já enfrentaram.
Neste ano de recordes de calor na temperatura do ar e dos oceanos, os animais perdem território e sofrem com a escassez de alimentos. Foi-se o tempo em que pinguins eram sinônimo de frio. Hoje eles representam para o Hemisfério Sul o que o urso-polar é para o Norte: o símbolo da natureza ameaçada pelas mudanças climáticas.
— Os pinguins são sentinelas do Atlântico Sul, sentem primeiro o impacto de mudanças que atingirão a todos nós. Temos muito mais a ver com pinguins do que imaginamos — destaca Maria Virginia Petry, do Laboratório de Ornitologia e Animais Marinhos da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), que há mais de três décadas estuda essas aves.
O krill, minúsculo crustáceo que está na base da pirâmide alimentar dos mares antárticos e subantárticos e prato favorito de muitas das 18 espécies de pinguins, não se reproduz se a temperatura da água sobe 0,4°C. Peixes, lulas e outras criaturas marinhas das quais os pinguins se alimentam, por sua vez, migram para outras bandas.
O pinguim-rei, bem mais aventureiro que seu primo imperador, sofre um pouco menos do que ele, cujas zonas de reprodução estão confinadas à Antártica — o rei forma colônias em ilhas subantárticas, como as Falklands. Ele também é um pouco menor que o imperador, o maior de todos, que passa de um metro de altura. Porém, seu traje a rigor é do modelo de luxo. Tem o bico mais longo e é o mais colorido dos pinguins, com detalhes de laranja intenso na cabeça e no pescoço, e uma plumagem cinza reluzente com matizes de azul nas costas.
— É o mais lindo de todos — derrete-se Petry.
Cada indivíduo tem uma voz única, que o identifica no meio da multidão da colônia. E todos parecem fazer questão de dizer quem são ao mesmo tempo, um burburinho levado longe pelo vento. Ainda que seja muito curioso, como todos os pinguins, o rei é dono de um olhar que emana plenitude. Não teme o ser humano e anda com a tranquilidade de quem não perde a majestade.
Mas, mesmo com todo o brilho e pompa da realeza, ele também vê seu mundo encolher. Autor de numerosos estudos sobre os animais, Robin Cristofari, da Universidade de Turku, na Finlândia, diz que a espécie já esteve muito perto da extinção após ser massacrada por caçadores de focas entre o século XIX e a metade do século XX.
Os caçadores, cujos vestígios são visíveis até hoje em muitas das ilhas subantárticas no Atlântico e no Índico, usavam os pinguins como combustível: matavam-nos no fogo para retirar o óleo. Com o banimento da caça, as aves começaram a se recuperar. Até que outra ameaça produzida pelo ser humano, desta vez a mudança no clima, pôs de novo sua sobrevivência em risco.
Um estudo liderado por Cristofari e publicado na revista científica Nature estima que até 70% da população de pinguins-reis será extinta nas próximas décadas.
As Falklands são um paraíso para cinco espécies. Além dos reis, há muitas colônias de gentoos, o clássico pinguim de geladeira. Também são numerosos os pinguins-de-Magalhães, a espécie mais comum na América do Sul e da qual, vez ou outra, alguns desorientados acabam vindo parar no Brasil. Há ainda os pinguins-de-penacho-amarelo, donos de um estiloso penteado punk, e os macaroni, também punks, mas um pouco maiores e gordinhos. Em comum, além do apetite por frutos do mar e o traje de gala, todos correm o risco de serem varridos da Terra pelo calor.
Os pinguins dependem do gelo marinho e das baixas temperaturas para sua sobrevivência. E as mudanças climáticas fazem os trópicos avançarem sobre as zonas mais frias, mudam os ventos e as correntes marinhas.
— Eles se adaptaram ao longo de 60 milhões de anos para uma vida dependente do frio e do mar. O formato do corpo, as membranas nas patas, a cauda que serve de leme, tudo evoluiu para um mundo que está desaparecendo — diz Petry.
Além disso, as áreas de pesca estão cada vez mais longe, diz Paul Brickle, diretor do Instituto de Pesquisa Ambiental do Atlântico Sul (Saeri, na sigla em inglês), em Stanley. Petry conta que um pinguim antártico chegou a percorrer 2.400 quilômetros, em dez dias de viagem, somente para conseguir comida.
A Corrente do Brasil — o grande rio oceânico dentro do Atlântico que traz águas quentes dos trópicos e que se encontra com a fria corrente das Falklands na latitude do arquipélago — avança cada vez mais para o Sul. Isso tem afetado a fauna marinha como um todo.
— Hoje as mudanças climáticas são a maior ameaça à vida selvagem — diz Brickle.
O Saeri monitora os pinguins para entender como eles têm enfrentado as mudanças no clima. Petry acrescenta que animais de todas as espécies estão indo cada vez mais para o Sul, uma espécie tirando o habitat da outra, numa reação em cadeia, que ameaça ainda mais os antárticos imperador e pinguim-de-adélia.
Na Antártica, o derretimento recorde do gelo sobre o mar tem destruído ninhos e levado filhotes a morrerem de fome, de frio (suas penas não são impermeáveis como as dos adultos) ou afogados. Os cientistas alertam que é preciso reduzir logo e com intensidade as emissões de gases-estufa para que o planeta não se torne tão quente que os pinguins sejam reduzidos a enfeites de geladeiras, lembranças de um mundo perdido.
Fonte: O Globo
Com a chegada do inverno, jacarés mudam comportamento no Parque Chico Mendes
25/06/2026
Expedição encontra traços de cocaína, cafeína e agrotóxicos na nascente do Tietê
25/06/2026
Elefanta Baby é transferida para santuário em MT após ordem da Justiça
25/06/2026
O voo da virada: como o canário símbolo da Seleção superou a extinção
25/06/2026
Copa de 2026 pode ser a mais poluente da história, com 7,8 milhões de toneladas de CO₂
25/06/2026
Guterres propõe 7 passos para enfrentar as “duas crises” globais
25/06/2026
