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O que o Rio Grande do Sul pode aprender com as falhas na resposta ao Katrina nos EUA

16/05/2024

No momento em que o Rio Grande do Sul confronta o alcance da destruição provocada pela maior enchente de sua história, surgem comparações com um dos mais devastadores desastres naturais a atingir os Estados Unidos: a passagem do furacão Katrina, em 2005.
Nos últimos dias, veículos da imprensa internacional chegaram a dizer que as inundações no sul do Brasil podem representar um teste e um "momento Katrina" para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Até a manhã de segunda-feira (13/5), havia 447 municípios afetados no Rio Grande do Sul, com mais de 2 milhões de pessoas afetadas. O governo havia contabilizado 147 mortes e mais de 800 feridos.
Nos Estados Unidos, o então presidente George W. Bush foi duramente criticado pelo fracasso na resposta ao Katrina, que deixou quase 1,4 mil mortos e mais de 1 milhão de desalojados na região americana da Costa do Golfo do México e arrasou a cidade de Nova Orleans.
Quase 20 anos depois, as falhas de planejamento e preparação, a extensão dos danos e os desafios na reconstrução continuam sendo um símbolo no país e uma lição para outros locais afetados por desastres naturais.
Enquanto muitos dos estragos eram considerados inevitáveis, diante da força do furacão, hoje há consenso de que a devastação nos Estados Unidos foi agravada pela demora e ineficácia da resposta.
Segundo Jeffrey Schlegelmilch, diretor do Centro Nacional de Preparação para Desastres da Universidade Columbia, em Nova York, o Katrina até hoje continua sendo "um exemplo muito importante" dos erros a evitar em catástrofes do tipo.
Schlegelmilch diz à BBC News Brasil que parte dos problemas vinha de longo prazo, e já se sabia há muito tempo que Nova Orleans era vulnerável a inundações.
Maior cidade do Estado da Louisiana, Nova Orleans está localizada às margens do Lago Pontchartrain e do rio Mississippi, em uma área abaixo do nível do mar, e contava com um sistema de diques para se proteger das águas.
"Sabia-se que havia fragilidades no sistema", afirma Schlegelmilch. "Também em torno de como o rio Mississippi, como bacia hidrográfica, estava sendo usado, e como a agricultura e o desvio de águas reduziam algumas das barreiras naturais para evitar inundações."
O Katrina chegou em 29 de agosto de 2005. Um dia depois, os diques se romperam, provocando uma inundação que destruiu bairros inteiros e deixou 80% da cidade submersa.
Em análises e estudos feitos após a tragédia, especialistas concluíram que, caso tivessem sido construídos de maneira adequada, os diques poderiam ter suportado a tempestade.
No entanto, o próprio US Army Corps of Engineers (Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos, agência federal de engenharia pública que projetou o sistema de proteção da cidade) admitiu posteriormente uma série de problemas na construção dos diques.
O projeto havia sido baseado em dados desatualizados, tinha design defeituoso e problemas de qualidade de materiais, resultado da falta de financiamento apropriado.
Segundo Tim Frazier, diretor docente do programa de gestão de emergências e desastres da Escola de Estudos Continuados da Universidade de Georgetown, em Washington, tanto o governo federal quanto o Estado e o município falharam em relação à manutenção e aperfeiçoamento dos diques.
"Mas a realidade é que os diques foram erguidos para proteger uma cidade que nunca deveria ter sido construída nesse local", diz Frazier à BBC News Brasil.
Quando os diques se romperam, cerca de 1,2 milhão de pessoas já haviam deixado a região afetada, que englobava também outras cidades próximas. Mas pelo menos 100 mil moradores haviam ficado para trás, alguns por opção, outros por não conseguirem sair por conta própria.
"Não se percebeu que tantas pessoas precisariam de ajuda, fossem idosos com problemas de locomoção ou pessoas pobres, que não tinham carro nem dinheiro para pagar um meio de transporte e deixar a área", ressalta Frazier. "Além disso, não havia para onde ir."

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