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A crise climática tem solução, diz diretor da SOS Mata Atlântica

28/05/2024

O agrônomo Luís Fernando Guedes Pinto costuma comparar a mata atlântica a um paciente que está na UTI. O bioma, que é o mais devastado do Brasil, conserva apenas 24% da cobertura vegetal original e só 12,4% de florestas maduras e bem preservadas, além de ter mais de 2.000 espécies de plantas e animais em risco de extinção.
O diagnóstico não é animador, mas, para Guedes Pinto, a doença tem cura. Segundo o diretor executivo da Fundação SOS Mata Atlântica, o remédio é, por um lado, zerar o desmatamento; por outro, promover a restauração em larga escala, recuperando até 15 milhões de hectares de floresta.
O ambientalista, que foi coautor de uma pesquisa recente sobre a viabilidade econômica da restauração em fazendas de café na mata atlântica, afirma que a meta não só é factível como pode ser atingida sem prejudicar o crescimento do agronegócio.
"A produção de alimentos e a riqueza gerada no campo podem crescer sem nenhuma necessidade de desmatamento. Isso já é senso comum", afirma.
Na última semana, a fundação divulgou os dados anuais sobre desflorestamento da mata atlântica, que mostraram melhora significativa na parte contínua do bioma, inclusive em estados que costumam ser líderes de desmate.
Os avanços, porém, acontecem em meio a obstáculos, como uma série de projetos de lei que enfraquecem o licenciamento ambiental e a Lei da Mata Atlântica, apresentados no Congresso e em assembleias estaduais.
Outro desafio a ser enfrentado é o desconhecimento de muitos brasileiros sobre o bioma, mesmo que 70% da população do país vivam nele.
"As pessoas não sabem que moram na área de mata atlântica e que dependem dela para obter alimentos, água, energia elétrica", afirma Guedes Pinto. "A mata atlântica oferece mais da metade da comida que vem para o nosso prato, é uma super produtora de commodities. Tudo isso depende da floresta para existir."
Nesta segunda-feira (27), Dia Nacional da Mata Atlântica, leia a entrevista concedida por ele à Folha.
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Costumamos associar o aquecimento global a outros biomas brasileiros, como amazônia e cerrado. Qual é o papel da mata atlântica na crise do clima e em suas soluções?
Na época do Acordo de Paris [2015], falava-se somente em mitigação, em cortar emissões, acabar com o desmatamento. E aí, diferentemente da amazônia, a contribuição do desmatamento da mata atlântica para o aquecimento global é pequena.
Porém, o IPCC apontou há poucos anos que, para chegar à meta de 1,5ºC [de aumento de temperatura], não é suficiente parar de emitir. É preciso remover gás carbônico da atmosfera em grande escala, e aí entra a agenda da restauração.
A mata atlântica é um dos biomas prioritários para restauração no mundo. É o hotspot número 2 de biodiversidade do planeta, o que significa que ela tem um grande número de espécies, muitas delas endêmicas (que só ocorrem ali), e um alto grau de ameaça de extinção dessas espécies.
70% da população e 80% do PIB do Brasil estão na mata atlântica, mas as pessoas não sabem que moram na área de mata atlântica e que dependem dela para obter alimentos, água, energia elétrica. A mata atlântica oferece mais da metade da comida que vem para o nosso prato, é uma super produtora de commodities. Tudo isso depende da floresta para existir.

Pessoas que vivem nas cidades têm dificuldade de enxergar essa dependência da floresta?
Esse é o nosso grande problema. Há uma grande desconexão entre a natureza e a vida das pessoas. Não entendemos que a água, a energia elétrica, a comida, boa parte do que consumimos vem da natureza e que a qualidade de vida na cidade é afetada pelo que acontece na natureza.
Um grande desafio que temos é a educação e a sensibilização. Também precisamos que as cidades sejam mais verdes. Do Rio Grande do Sul até o Rio Grande do Norte, todas as capitais estão na mata atlântica, e grande dessas metrópoles perderam o verde dentro da cidade. A gente precisa de muito mais parques, áreas verdes, para as pessoas perceberem a natureza.

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