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Após estudos, manguezal destruído por mudanças climáticas começa a ser reflorestado em Aracruz, no ES

13/06/2024

O manguezal do Piraquê-Açú-Mirim em Aracruz, no Norte do Espírito Santo, que foi destruído por uma chuva de granizo em 2016, começou a ser recuperado. No começo do mês, as primeiras mudas foram plantadas por ribeirinhos, catadores de caranguejos e pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
O local possui grande biodiversidade e é essencial para comunidades ribeirinhas e povos indígenas. O projeto de reflorestamento do mangue é um estudo inédito realizado pela Ufes, com apoio da Prefeitura de Aracruz.
Cerca de 800 mudas de diferentes tipos de mangue, como o mangue branco, que é o existente no local, mangue preto e também vermelho, foram cultivadas em laboratório e preparadas exatamente para essa ação, começaram a ser replantadas.
No primeiro dia de reflorestamento foram plantadas aproximadamente 1000 mudas como ato simbólico. Ao longo do projeto, um grupo selecionado nas comunidades entorno no manguezal vai fazer o plantio do manguezal de forma remunerada.
A coordenadora do projeto e professora do Departamento de Ciência Agrárias e Biológicas da Ufes de São Mateus Mônica Tognella explicou que sem copas de árvores, o solo do mangue acaba absorvendo muito calor estando apenas com vegetação morta.
"O solo do mangue ele é escuro, é um solo que absorve muito calor quando não tem a copa da árvore. A partir do momento que a gente vai colocando as plantas, a gente implanta de uma forma chamamos de técnica de nucleação. Elas são mais agregadinhas. Isso aumenta o sombreamento e permite que o caranguejo chegue mais facilmente", disse a professora.
A expectativa é de que em cinco anos as mudas ultrapassem a altura das árvores que estão mortas.
A vegetação do mangue não resistiu a mudanças climáticas e cerca de 500 hectares, o equivalente a 500 campos de futebol, foram totalmente destruídos em 2016. Desde então, todo o manguezal e sua fauna e flora eram monitorados por pesquisadores.
O ecossistema inteiro foi perdido em poucas horas, e o manguezal morto já liberou mais de 1 milhão de toneladas de CO2 na atmosfera, o equivalente a uma cidade com 100 mil brasileiros ao longo de um ano.
O catador de caranguejo Diego Correia participou da primeira etapa do reflorestamento do mangue. Ele contou que lembra como era o mangue antes da destruição.
"Não só caranguejo como peixe, também marisco, ostra, sururu. É um local que tinha muita variedade de marisco, de peixe. Saber que um grande ecossistema está sendo perdido aqui, é muito triste. O manguezal não é só pra você tirar, tem que saber retribuir também e eu tirei um dia pra retribuir", comentou o catador.
Além do impacto ambiental, a perda do mangue também atinge a economia das famílias da região, que dependem da venda dos caranguejos e do turismo.
Atualmente, a espécie de caranguejo que existe no local é conhecida como "Chama maré". Eles são menores e por isso não são comercializados.
"São centenas de famílias que sobrevivem tradicionalmente da cata do caranguejo, do siri, como pescadores, cata de crustáceos. Nós temos as artesãs que usam a taboa. A comunidade toda depende desse ecossistema. Nós tivemos 25% dele degradado em um evento climático, então a recuperação é fundamental", disse o secretário municipal de Meio Ambiente, Aladim Fernando Cerqueira.
Há mais de 30 anos, Ester Vasconcelos aprendeu a catar caranguejo com os irmãos, e essa é a principal fonte de renda da família. Para ela, ver esse espaço ganhando vida novamente a encheu de esperança.
"A gente fica alegre por conseguir plantar para que a gente possa trabalhar, continuar trabalhando", comentou Ester.
O mangue possui em torno de 1.800 hectares em sua totalidade. A ideia é que sejam recuperados ao menos 200 hectares dos 500 afetados.
“É nesse espaço que o projeto vai atuar e buscar, ao longo dos próximos quatro anos, restaurar 201 hectares em parceria com o Fundo Brasileiro para Biodiversidade (Funbio). A nossa ambição é ampliar este número e tornar a sociedade local capacitada para restaurar aquelas [áreas] degradadas e conservar as naturais”, explicou Mônica.
O projeto é uma parceria de outros 13 pesquisadores vinculados aos programas de pós-graduação em Agricultura Tropical, Biologia Vegetal e Oceanografia Ambiental e possui a participação de outras 40 universidades.
A professora explicou que para o reflorestamento do mangue, diferentes técnicas de restauração foram desenvolvidas para identificar aquelas mais eficientes para os manguezais.
“Este estudo integrado e inédito vai contribuir para o avanço científico no conhecimento dos tensores ambientais relacionados às mudanças climáticas e como eles podem interferir nos processos de sequestro e armazenamento do carbono pelos manguezais, em nível biológico e geológico, em curta e larga escala”, comentou Mônica Tognella.
Com o reflorestamento, o projeto deve capacitar e financiar a comunidade para que o trabalho de preservação possa se perpetuar.
"Nós vamos aplicar aquilo que a gente aprendeu em uma escala espacial pequena, para essa dimensão dessa escala de 500 hectares de manguezal morto, com o compromisso de revitalizar no mínimo 200 hectares. E vamos testar e vamos inserir a comunidade de forma que ela fique capacitada em manter esse manguezal vivo continuamente, de geração em geração. Já houve registros dos interessados em participar efetivamente do projeto e, durante 24 meses, contaremos com os catadores e catadoras de caranguejos nas atividades de restauração", pontuou a professora.
A comunidade de Santa Rosa será a referência inicial do projeto, pois a maior área de manguezal degradado está no seu território.
“A floresta em pé é base para a matéria orgânica que sustenta toda a vida da cadeia alimentar do manguezal, baseada nos organismos decompositores, como os caranguejos. Esta fauna, além da sua importância ecológica, como engenheiros do ecossistema, são base de sustento alimentar e subsidiam economicamente estas comunidades locais", pontuou Mônica Tognella

Fonte: g1

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