
27/06/2024
O Brasil ainda não tem uma planta de recuperação energética de resíduos a partir da queima —na qual o lixo é usado como insumo para termelétricas que o convertem em energia—, mas defensores e opositores da tecnologia tem posições cerradas sobre o tema, tratado como espécie de religião.
Recuperação energética é o nome em português para waste-to-energy, termo que reúne processos de produção de calor, energia elétrica e biogás a partir de resíduos sólidos urbanos por meio de combustão ou aterramento.
No Brasil, já há a transformação de rejeitos em combustível, chamado de CDR (Combustível Derivado de Resíduos), para fornos da indústria cimenteira. Pelo mundo, no entanto, o tipo de tratamento mais comum é a combustão de rejeitos para a geração de energia. O modelo existe em países como França, Alemanha e Estados Unidos.
O processo em geral funciona assim: os resíduos são introduzidos em uma fornalha a uma temperatura de cerca de 1.000° C. O calor é usado para aquecer água em caldeiras, de modo a gerar um vapor que aciona turbinas ligadas a geradores elétricos.
Por um lado, a tecnologia gera energia e diminui o volume resíduos que seriam destinados a locais inadequados. Por outro, é cara e complexa. Dioxinas e furanos, subprodutos do processo de queima, são considerados altamente tóxicos e cancerígenos. Eles requerem tratamento específico e dispendioso para não escaparem do processo, mas a eficácia desses métodos ainda assim é questionada.
A primeira unidade do Brasil e da América Latina está em construção em Barueri (SP) e deve ser inaugurada em 2027 com potência instalada de 20 MW e capacidade de tratamento de 300 mil toneladas anuais.
A estimativa é que a unidade gere uma energia equivalente ao consumo de 320 mil pessoas, suficiente para abastecer a cidade inteira de Barueri.
O projeto é uma parceria da Orizon, empresa de gestão de resíduos, com a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), e receberá aproximadamente R$ 550 milhões em investimentos, sendo 80% da primeira e 20% da segunda.
"Hoje a tecnologia está completamente consolidada, sem nenhum tipo de problema ambiental, de poluição, de saúde", diz Antonio Bolognesi, presidente do conselho da Abren (Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos).
Bolognesi afirma que a fumaça decorrente do processo é 100% tratada, com produtos químicos e filtragem, de forma que das chaminés só sai vapor de água.
Elisabeth Grimberg, coordenadora de projetos de resíduos sólidos do Instituto Pólis, diz que o monitoramento é uma dificuldade. "Um país onde não tem nem rede de esgoto para toda a população vai ter equipes fiscalizando essas emissões? Os filtros são a primeira coi sa que se desliga, se tira", afirma ela, que também é cofundadora da Aliança Resíduo Zero Brasil.
Segundo Grimberg, a prática de incineração também pode dificultar esforços de redução de consumo e produção durável. "O mundo continuará a produzir plástico, isopor nessa escala? Nenhuma mudança à vista? A indústria não vai avançar para uma produção mais sustentável? É uma aposta cega no crescimento da geração de resíduos contínua."
Os resíduos utilizados no processo de recuperação enérgica por combustão vão desde pneus usados até fraldas geriátricas, que são contaminados ou não recicláveis. Mas os resíduos recicláveis podem entrar no forno também, o que é visto como ameaça à frágil cadeia de reciclagem de resíduos do Brasil.
Para Grimberg, investir nessa alternativa é um desincentivo a mudanças necessárias no modo de produção da indústria geradora de resíduos. "Por que vão mudar se existe algo que vai fazer ´desaparecer´ esses resíduos sem custo para o setor produtivo?"
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