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Furacões, terremotos e outros desastres ameaçam 1 em 10 espécies de vertebrados

09/07/2024

Cerca de uma em cada dez espécies de vertebrados no mundo sofrem ameaça de extinção devido a fenômenos naturais, como furacões, terremotos, tsunamis e erupções vulcânicas.
Do total de vertebrados terrestres (34.035), 10,9% (3.722) têm algum risco de ameaça devido aos fenômenos naturais, sendo 16% dos anfíbios, 14,5% dos répteis, 7% dos mamíferos e 5,7% das aves. Ainda, 54% destas (2.001) apresentam alto risco.
Essas são as conclusões de um estudo que analisou, pela primeira vez, a relação entre a área de distribuição dos vertebrados e a sobreposição com regiões onde esses fenômenos ocorrem. Os efeitos nas populações animais de perda de habitat com, por exemplo, desmatamento, da caça e de outras ações antropogênicas que vivem em áreas de risco podem acelerar ainda mais essa extinção, dizem os autores.
A pesquisa foi liderada pelo biólogo brasileiro Fernando Gonçalves, do Centro para Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças no Clima, da Unesp (Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho") de Rio Claro e também pós-doutorando na Universidade de Copenhague, na Dinamarca, e foi coordenada por Mauro Galetti, professor titular de ecologia do Departamento de Biodiversidade, também da Unesp.
O artigo foi publicado no último dia 17 na revista especializada PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences).
Os vertebrados são divididos entre peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. No entanto, a pesquisa analisou a influência dos fenômenos naturais como furacões, terremotos, tsunamis e vulcões em anfíbios, répteis, aves e mamíferos, que compõem o grupo dos vertebrados terrestres (ou tetrápodes).
Para avaliar o grau de impacto desses eventos, os pesquisadores analisaram 50 anos destas atividades naturais e cruzaram com a área de distribuição de espécies de vertebrados, bem como a sua classificação de risco conforme a lista IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza).
Os fenômenos naturais têm maior impacto em espécies insulares (que vivem em ilhas) e naquelas cujas populações na natureza são reduzidas, podendo, assim, ultrapassar a capacidade de resiliência delas frente às mudanças, levando à extinção.
Foram identificadas 8.813 espécies com populações reduzidas ou com uma distribuição global restrita –também chamadas de espécies endêmicas. As 3.722 espécies com alguma ameaça vivem em áreas onde há a sobreposição desses dois fatores —isto é, fenômenos naturais e distribuição geográfica restrita ou populações com baixo número de indivíduos.
Já aquelas consideradas de alto risco (2.001) tinham até 25% da sua área de distribuição sobreposta aos eventos naturais. O problema é agravado quando, devido à crise climática, os eventos extremos se tornam mais frequentes e intensos, explica Gonçalves.
"O grande fator de novidade deste estudo é que, embora a gente tenha diversas publicações demonstrando o efeito antropogênico na extinção das espécies, não existe nenhum analisando o efeito de fenômenos naturais e se eles podem ou não acelerar a extinção. Mas vulcões, terremotos e tsunamis são eventos geológicos que ocorrem no planeta há muitos anos", explica.
Recentemente, os estragos causados pelo furacão Beryl, no Caribe, reforçam a necessidade de olhar com atenção para como esses fenômenos intensos podem provocar danos irreparáveis à fauna e flora locais. "Já trabalhei muito naquela região, do Caribe, e vi o dano que os furacões podem causar, ao mesmo tempo que vi poucas ações [de conservação] que ajudem a biodiversidade", afirma o biólogo.
A região do Caribe é, inclusive, a área apontada no estudo como mais sujeita à ocorrência de furacões, enquanto o chamado "Arco do Fogo Pacífico", que vai desde a Indonésia até o Chile e Havaí, inclui a região com maior ocorrência de terremotos, tsunamis e vulcões.
No caso do Brasil, o estudo encontrou duas espécies com risco devido a fenômenos naturais: um lagarto (Liolaemus lutzae) encontrado nas matas de restinga no Rio de Janeiro e que sofreu com uma ressaca em 2004, e o sapo-de-barriga-vermelha (Melanophryniscus cambaraensis), que vive entre os estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul —o último, afetado por um furacão de baixa intensidade que ocorreu no mesmo ano.
Este não é, porém, um cenário confortável. De todas as espécies analisadas, apenas 15% com alto risco têm planos específicos de conservação, enquanto 30% estão fora de áreas protegidas.
"Embora, como país, não estejamos na mesma situação de outras regiões muito ameaçadas, como o Caribe, temos muitas espécies que vivem em áreas restritas, já muito ameaçadas por conta da destruição de habitat e pela ação humana", explica o ornitólogo (especialista em aves) Luís Fábio Silveira, professor e curador da coleção de aves do Museu de Zoologia da USP e um dos autores do estudo.
"Como os fenômenos naturais extremos de agora em diante tenderão a ser mais constantes, certamente populações de animais que vivem nestas áreas não terão tempo para recuperação. Isso, adicionado ao fato de muitas delas já se encontrarem ameaçadas, a intensificação destes fenômenos pode ser o fator que faltava para levá-las à extinção", diz.
Por essa razão, os autores do artigo fazem um apelo para que sejam feitas políticas específicas para a preservação das espécies, uma vez que não é possível saber ainda os efeitos combinados de pressões antropogênicas e de fenômenos naturais.
"Hoje, para muitos animais, já não é possível falar de conservação sem destacar o papel de criadores e zoológicos que se engajam de forma importante em planos de conservação global", afirma Silveira. "Certamente, algumas destas espécies em alto risco devem ser mantidas e reproduzidas em cativeiro de forma preventiva, antes que o número de indivíduos na natureza seja tão baixo que já seja tarde demais para fazer alguma coisa."

Fonte: Folha de S. Paulo

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