
11/07/2024
Depois do pantanal e do cerrado, a amazônia também bate recorde de queimadas no primeiro semestre deste ano.
Até domingo (7), foram detectados pelo Programa BD Queimadas, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), 14.250 focos de calor no bioma. É o maior número em duas décadas para o primeiro semestre, e um aumento de 60% em relação ao mesmo período do ano passado.
O presidente do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Rodrigo Agostinho, explica que os focos de calor geram um alerta, mas, para mensurar o estrago, é preciso saber o tamanho da área queimada.
"Às vezes, o mesmo incêndio gera para o satélite centenas de focos de calor", diz Agostinho à BBC News Brasil.
Ainda assim, alguns estados estão sob alerta maior. Roraima, de acordo com Agostinho, é o que se encontra em situação mais crítica dentro do bioma amazônico hoje.
Das detecções de fogo por satélites, 33% estão ali, ou 4.627 focos, o maior número desde o início da série histórica medida pelo Inpe, em 1998.
"A temporada seca lá ocorre em novembro e dezembro, mas se arrastou até março deste ano", explica o presidente do Ibama.
Na mesma esteira, o Mato Grosso, que abriga os biomas da amazônia, cerrado e pantanal, apresentou o maior número de focos de incêndio de todo o país, batendo um recorde de vinte anos.
A Secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso afirmou em nota que "o estado sofre com estiagem severa e baixa umidade desde o fim do ano passado e, com isso, o material orgânico seco oriundo da vegetação se acumula, o que tem facilitado a combustão".
A secretaria também apontou que o governo do estado investe, neste ano, R$ 74 milhões na execução do Plano de Ação de Combate ao Desmatamento Ilegal e Incêndios Florestais.
A capacitação de brigadistas e bombeiros, monitoramento em tempo real dos focos de queimadas, a construção de açudes e perfurações de poços, assim como a substituição de pontes de madeira por concreto, são parte das ações do plano.
A BBC News Brasil procurou também a Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Roraima, mas não recebeu resposta até o fechamento desta reportagem.
Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), explica que o déficit hídrico do ano passado no bioma junto à antecipação da estação seca ocorrida neste ano deixaram a vegetação muito inflamável.
"Passei por algumas regiões do Mato Grosso recentemente e pude perceber que a vegetação já formou aquela cama de folhas secas no chão, algo que costuma ocorrer no final de julho, início de agosto", explica Alencar. "A região de Santarém [no Pará] também. E ali começa a secar geralmente em setembro, outubro".
Diante do cenário de antecipação da seca, Agostinho afirma que as operações para o segundo semestre estão sendo intensificadas.
No caso da amazônia, de acordo com o presidente do Ibama, as ações serão voltadas principalmente para o cinturão do desmatamento, "onde a área degradada é propícia para os incêndios".
O cinturão (ou arco) do desmatamento é o nome dado a uma extensão de cerca de 500 km² de terras que vão desde o leste e o sul do Pará em direção a oeste, passando pelo Mato Grosso, Rondônia e Acre. É nesta região onde ocorre a maioria do desmatamento na amazônia.
O governo federal anunciou na semana passada uma queda de 38% no desmatamento da amazônia no primeiro semestre deste ano. Entre 2022 e 2023, a redução havia sido ainda mais significativa, de 50%, segundo dados oficiais.
Ao fazer o anúncio, na quarta-feira (4), a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede), disse ter "esperança" de chegar ao desmatamento zero no bioma até 2030, uma promessa feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A preservação da floresta é fundamental para mitigar os estragos causados pelo fogo, de acordo com Ane Alencar.
"Percebemos que, onde houve a redução do desmatamento também houve queda nas queimadas e nos incêndios no ano passado", diz a diretora do Ipam.
"Ainda bem que houve um esforço forte para reduzir o desmatamento no ano passado. Essa redução impediu que a área afetada por incêndios fosse muito maior."
Além das questões climáticas, que podem ser incontroláveis, mas já podem ser, em grande parte, previstas, o desmatamento é considerado pelos ambientalistas peça fundamental para o alastramento do fogo.
"Quando alguém derruba uma floresta, na sequência põe fogo", diz Agostinho. "Mas, muitas vezes, o sujeito derruba 100 hectares, põe fogo, mas o fogo se alastra e queima outros 500 hectares."
Além disso, na amazônia a área desmatada, muitas vezes, é uma terra pública, o que dificulta a identificação e punição dos responsáveis do local, segundo o presidente do Ibama.
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