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Limpo ou sujo, Sena está décadas à frente dos rios paulistanos

16/07/2024

O Sena enfim está limpo, anunciou a prefeitura de Paris em seu último boletim de balneabilidade. Personagem de uma grande aposta dos organizadores para os Jogos Olímpicos de 2024, o icônico rio da capital francesa consumiu nos últimos anos 1,4 bilhão de euros (R$ 8,3 bilhões de reais).
A conta é alta, mas soará talvez razoável depois que suas águas ganharem visibilidade internacional com as provas de triatlo e maratona aquática entre o fim de julho e começo de agosto.
Não é pouca coisa. É proibido nadar no Sena desde 1923. Antes mesmo da última edição dos Jogos em Paris, em 1924, a poluição de sua sinuosa "rivière" já era um fato.
Nessa época, o Tietê, grande rio paulista, ainda era limpo. Recebia competições náuticas e, anos mais tarde, veria surgir de suas margens os primeiros grandes nomes do esporte olímpico nacional.
Foi dele que saiu Maria Lenk, a primeira sul-americana a competir em Olimpíadas (1932 e 36), e João Havelange, o atleta de costas largas que se transformaria décadas mais tarde no maior e mais poderoso dirigente esportivo do planeta.
O cartola, nadador nos anos 1950, chegou a pegar tifo no rio que, para o bem e para o mal, define São Paulo. O Tietê se degradou como o Sena, em um processo que se repete nas grandes metrópoles, fruto de decisões equivocadas e descaso com a natureza.
"Estamos há 30 anos tentando limpar o Tietê. A diferença para o Sena é que eles estão tentando isso há cem anos", diz Gustavo Veronesi, coordenador da causa "Água Limpa" da fundação SOS Mata Atlântica.
A diferença não é só de décadas. Se nas últimas semanas o rio francês era notícia por ter um dos parâmetros de balneabilidade 10 vezes acima do admissível, o paulistano nem é monitorado com regularidade. "A situação do Tietê é bem pior", diz Veronesi, apontando para medições feitas pela ONG no primeiro semestre deste ano.
A rigor, a balneabilidade do Tietê não é aferida em seu trecho urbano. A Cetesb, o órgão estadual responsável pelo monitoramento das águas paulistas, faz um controle de 33 praias fluviais —que, no caso do Tietê, estão em regiões distantes da capital, como Salesópolis. São exceções. Na represa de Guarapiranga, na zona sul de São Paulo, 8 das 10 praias foram classificadas como ruim ou péssima em 2022, data do último relatório sobre "águas internas" da companhia de saneamento.
O monitoramento dos rios é bem menos frequente que o de praias, mas os vilões são os mesmos: coliformes termotolerantes (os antigos coliformes fecais), E. coli e enterococos. Mudam apenas as densidades admitidas de bactérias, contabilizadas em UFC (unidade formadora de colônia) por 100 ml.
São padrões estabelecidos pelo Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), órgão federal, que refletem normas europeias e de federações esportivas. Semanas atrás o Sena derrapava em E.Coli, em níveis que deixariam suas praias artificiais com uma bandeira vermelha da Cetesb.
A Prefeitura de Paris se fia no sol e no tempo seco que custam a voltar à cidade. O período de chuvas deste início de verão europeu se estende, e o nível do rio está de quatro a seis vezes mais alto que o de costume. O excesso extravasa água da rede pluvial para a de esgoto, levando sujeira para o destino final, que é sempre o rio.
Parte do sistema data do século 19, quando a cidade sofreu uma reforma urbana sem precedentes. O crescimento desordenado dos subúrbios, notadamente após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), gerou um número insondável de ligações clandestinas.
Estima-se que o plano atual tenha diminuído a poluição em 75% e que o Sena já abrigue 30 espécies de peixes (eram 3 em 1970). O programa incluiu até a regularização de cerca de 250 casas-barcos que ficam estacionadas em suas margens.
"São Paulo tem progressos, mas ainda conta com mais de 2 milhões de pessoas sem esgoto tratado, o modelo rodoviarista, o complicado manejo dos resíduos sólidos. Há muitos desafios a serem superados", afirma Veronesi.
Professor da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da USP), Alexandre Delijaicov também vê uma política pública insuficiente. "A solução não virá com obras faraônicas ou piscinões. São Paulo é muito grande, deveria estar dividida em unidades de gestão intersetorial definidas pelas próprias microbacias. Temos que enfrentar o problema na escala da comunidade."

Termine de ler esta reportagem acessando a Folha de S. Paulo

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